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sábado, 5 de fevereiro de 2011

Patagonia 2010/2011

Dessa vez vou fazer ao contrário, isto é, deixar primeiro os links com vídeo e fotos pra depois começar o relato




https://picasaweb.google.com/aramisjunior81/100CANON#

RELATO


   Este dia foi praticamente um grande treino para a viagem, pois sai bem cedo com destino à casa do Romulo em Colombo. Como eu estava bem carregado (exatos 32kg, somando bike e bagagens), resolvi pedalar bem tranquilo com uma média de 22 km/h até o ínicio da serra, onde minha velocidade diminuiu rapidamente para meros 10km/h. Parei para comer algo na lanchonete Bela Vista e depois segui morro acima. Na parte mais íngreme meu velocímetro marcou 6km/h, entretanto não fiz mais nenhuma parada até chegar no SAU(Serviço de Atendimento ao Usuário) que fica perto do pedágio. Tomei um bom café (que é grátis), comi metade do meu pacote de bolachas e decidi tocar o barco para o centro de Curitiba.
  Chegando na parte central da capital paranaense percebi que estava com energia de sobra para ir direto a Colombo, sem almoçar. Primeiramente enfrentei as subidas até o bairro Santa Cândida e depois fui pêgo de surpresa com mais aclives até Colombo. Foi então que descobri o motivo do Romulo pedalar mais forte que eu, pois quase todo dia ele pedalava naquelas subidas. Cheguei em Colombo perto das 14h, liguei para o Romulo e o próprio apareceu 5 minutos depois. Almocei, tomei um banho e depois arrumamos as bikes em caixas que seriam transportadas no avião.



A bike pronta na hora da saída de casa.
24/12/2010 - Curitiba - Santiago do Chile

   O dia começou muito, mas muito cedo. As 3h e 30 min da madruga acordamos, tomamos café e fomos de camionete até o aeroporto Afonso Pena. Chegamos um pouco depois das 5h e encontramos o Bruno urgindo(palavras do Romulo) para que entrássemos logo na fila do check-in, pois o nosso avião iria sair exatamente as 6h e 10min. Apesar do peso ultrapassar em muito o limite de 23kg, a empresa não cobrou o excesso. Aqui vale um parênteses para falar que era a minha primeira viagem de avião. Senti aquele famoso frio na barriga na decolagem e depois fui curtindo as nuvens.
    Em pouco tempo chegamos em Guarulhos para pegar outra aeronave com destino a Santiago/Chile. Tivemos alguns contratempos com a nossa bagagem de mão(faca, chaves de bike, líquidos), mas nada que nos atrapalhasse. O avião para Santiago era bem maior , com direito a DVD em todas as poltronas. DVD que foi muito bem aproveitado para assistir dois filmes durante o voô: Salt e A Origem. Entretanto a parte mágica foi quando sobrevoamos a cordilheira dos andes, simplesmente alucinante. Ao pousarmos em Santiago enfrentamos uma fila gigantesca para fazer os trâmites, depois trocamos dinheiro (nosso maior erro, pois fazer câmbio em aeroporto é muito caro), pegamos a nossa bagagem e nos despedimos, pois enquanto eu iria pedalar pela Patagônia, o Romulo e o Bruno iriam fazer o trajeto Viña del Mar - Mendoza.
   Peguei um táxi e fui para o terminal de ônibus onde comprei passagem para Osorno. O problema é que o coletivo só iria sair as 20h e ainda eram 14h. O jeito foi esperar, esperar e esperar. Comprei pães, liguei para casa e depois fiquei sentado num canto lendo e pensando na vida até que ao mexer na barraca não encontrei o ferro de sustentação da mesma, corri ligar para casa novamente e minha mãe confirmou a desgraça. A solução foi deixar a bagagem perto das mulheres da limpeza e ir no shopping comprar outra barraca, bem barata só para quebrar o galho. Passado o susto apenas me restou lamentar o imprevisto e enfim embarcar no ônibus.
De avião pela primeira vez
Sobrevoando a cordilheira dos andes


25/12/2010 - Natal na Rodoviária de Osorno

   Quando cheguei  em Osorno já era Natal e pensei comigo: Mais um natal fora de casa, droga. Entretanto o pior estava por vir, pois quando desembarquei na rodoviária, fui logo comprar passagens para Coyhaique e tive a bela surpresa de só ter ônibus no dia 26. Que raiva! Demorei para processar esse fato e quando o fiz decidi que não iria ficar numa pousada, isto é, iria dormir na própria rodoviária.
   Estiquei meu isolante, abri meu saco de dormir e peguei meu livro. Algumas horas se passaram e resolvi andar pela rodoviária, depois sentei no banco, então deitei novamente, levantei mais um vez e assim foi o dia inteiro. Pude refletir muito sobre minha vida, sobre o natal e sobre muitas outras coisas e ainda tive tempo de notar a única chilena bonita naquele local: Uma moça de uns 20 anos, com aproximadamente 1,65m, cabelos pretos e com um corpo lindo. Ela trabalhava na empresa de ônibus Centinela e durante o dia deve ter passado por mim umas 20 vezes...huahau. 
   Perto das 19h eu protegi bem meus pertences e dormi um pouco até ser acordado pelo guarda me informando que era proibido dormir dentro da rodoviária. Fiquei de cara e aos poucos foi ignorando a ordem até que peguei no sono. Lá pelas 22h o guarda noturno(muito mais camarada que o diurno) me disse que iria fechar a rodoviária, pediu que eu dormisse no banco do lado de fora, mas deixou que minhas coisas ficassem do lado de dentro. Então dormi muito bem até as 5h da madruga quando a rodoviária abriu novamente.
   Faltava pouco tempo que eu pegar o ônibus até Coyhaique. Passei a manhã do mesmo jeito que o dia anterior, ou seja, levantei, sentei, andei, li, etc. Até que as 13:45min subi no ônibus e dei adeus aquele local monótono.
  
Natal na rodoviária de Osorno

26 e 27/12/2010 - Coyhaique

   Quando o ônibus saiu da rodoviária começou minha nova saga: quase um dia dentro do coletivo. Atravessamos a belíssima região dos lagos passando pelas aduanas (Chile e Argentina), por Villa la Angostura e depois pela entrada de Bariloche. O legal foi olhar toda aquela paisagem e relembrar da aventura de 2009/2010. O motorista fez uma parada para lanches perto de El Bolson e depois continuou pela ruta 40, estrada que trafegávamos desde Bariloche. A noite caiu, o rípio chegou e eu dormi. Ao acordar já estávamos próximos do Paso Coyhaique Alto (outra fronteira entre Argentina e Chile). Ao chegarmos na fronteira fomos fazer os trâmites e a chuva começou. Nessa hora veio em minha mente a maldita chuva da viagem anterior e por alguns minutos pensei que tudo aconteceria exatamente igual, ou seja, chuva, chuva e chuva. Contudo, para minha felicidade, o sol voltou e logo chegamos em Coyhaique.
   Montei a bike na rodoviária e fui para a mesma pousada onde o Romulo, o Gustavo e eu dormimos na viagem passada. A garota da pousada até me reconheceu. Tomei um bom banho e fui passear na cidade.
   Conheci a Piedra el Indio e a ponte Simpson (dois pontos turísticos, próximos da pousada, que em 2009/2010 não conhecemos). Depois andei pelo centro, pela praça principal e fiz compras no mercado. Mais tarde resolvi apreciar novamente o movimento da praça central ficando sentado durante uns trinta minutos num banco. Era um dia ensolarado que muitas pessoas (adultos e crianças) estavam aproveitando. Foi uma sensação muita boa. Parecia que eu tinha todo o tempo do mundo pra ficar ali, só olhando, apreciando aquele vai e vem de pessoas que conversavam, corriam, pedalavam, etc.
   Ao voltar para a pousada arrumei as coisas na bike, assisti dois filmes (A Múmia e Rei Arthur) e dormi quando estava passando o desenho dos Simpsons.
 
 Ponte Simpson

Piedra el Indio

Praça central de Coyhaique


28/12/2010 - Coyhaique - Cerro Castillo
   
   Enfim eu iria pedalar. Acordei bem cedo e saí as 6h e 30 min da pousada. O frio me obrigou a vestir calça e blusa, mas também me proporcionou belas imagens de alguns vales cobertos pelo nevoeiro.
   Foram 40 km até a bifurcação onde virei a direita  e fiz minha primeira parada para descanso. Durante este primeiro trecho pude tirar fotos belíssimas de paredões, campos e lagos.





   Descansei, comi, tirei algumas roupas (pois a temperatura aumentara) e segui para o sul. Quando me dei conta, já estava dentro da Reserva Nacional Cerro Castillo. Um lugar mágico. Lagunas verdes e azuis começaram a aparecer, depois encontrei o rio El Blanco e por fim pude observar montanhas e mais montanhas com o cume coberto de neve.




 
   Em uma das lagunas conversei com um motoqueiro italiano e um pouco mais a frente encontrei cicloturistas suíços e franceses. Mal sabia que um dos franceses iria me ajudar muito nesta aventura.
   Porém o ápice deste trecho foi o momento que avistei um ventisquero, isto é, uma pequena cachoeira formada pela neve derretida no alto de uma montanha. Não perdi tempo e fui tirar um foto. Show!


   Seguindo meu rumo, comecei a terceira a última parte do dia que era composta de várias descidas alucinantes. Descendo e olhando todos os lados para apreciar a magnífica paisagem da região, encontrei um local perfeito para tirar uma foto panorâmica. Parei, tirei a foto e quando olhei para a estrada novamente, vi um ciclista no sentido contrário. O espanhol Aritz  estava fazendo o mesmo caminho que o meu só que no sentido contrário, ou seja, de Ushuaia até Bariloche. Aproveitei e pedi para ele tirar uma foto minha com as montanhas nevadas ao fundo. Conversamos, trocamos informações e nos despedimos. 


    Continuei descendo até chegar na famosa Cuesta del Diablo, que é uma versão pequena dos caracoles do Paso Libertadores, na região de Los Andes.
   Parei e fiquei longos minutos só observando o visual. Olhei as curvas de 180º e as montanhas imponentes. Foi então que percebi o gigantesco Cerro Castillo ao meu lado esquerdo. Muito 10!



    Ao começar a descer a tal cuesta fiz uma boa filmagem (veja o vídeo no início do post) do trajeto e em pouco tempo eu já estava na Villa Cerro Castillo. Um lugarejo bem pequeno, mas agradável. 



    Enquanto procurava um camping, descobri que meu alforje soltava do bagageiro com a trepidação do rípio. O jeito foi pedalar com calma nos 1000m de estrada de terra (rípio).
   Já devidamente instalado e de banho tomado, percebi que havia perdido um pé de chinelo e fiquei indignado. Depois fui comprar pães, doces e frios para o café do dia seguinte e por sorte encontrei o chinelo caído na estrada. De volta ao camping, fiquei apreciando a belíssima vista do Cerro Castillo e do rio Ibanez.


   Por fim, tive uma longa prosa com os donos do camping: Jorge e Célia.
   Foram 96 km de pura magia neste primeiro dia de pedalada.

29/12/2010 - Cerro Castillo - Puerto Tranquilo


   Acordei cedo, desmontei acampamento e prendi os alforjes com extensores, pois a partir de Cerro Castillo, a carretera austral é toda em rípio (terra e pedras soltas). Exatamente as 7h comecei a enfrentar o sacolejo da estrada. Para piorar, os aclives também resolveram aparecer e por conta disso, os 20 primeiros quilômetros foram bem difíceis. Neste trecho pude tirar mais algumas fotos do Cerro Castillo e de algumas lagunas, mas meu pensamento estava no famoso bosque morto, que guarda um cenário desolador e é formado por troncos queimados pela erupção do vulcão Hudson que, em 1982, devastou bosques da região e mudou o curso do rio Ibáñez.




   Percebi que estava próximo do tal bosque quando avistei de longe o Vulcão Hudson e daquele momento em diante fui apreciando uma vegetação que me fez pensar estar nos pântanos mortos da trilogia Senhor dos Anéis. Neste momento as subidas já haviam acabado, eu havia descido um bom trecho e estava pedalando no plano. De repente vejo ao longe a placa que dizia: Mirador Bosque Muerto. O lugar era incrível! Centenas de troncos secos encravados no leito cinza do rio Ibañez e o gigantesco vulcão ao fundo. Fascinante










   Depois de longos minutos apreciando a desolada paisagem do Bosque Muerto, resolvi seguir meu caminho. Enfrentei diversos aclives, parei durante 30 minutos para saborear meu almoço (pão com doce de leite) e finalmente comecei a descer novamente.


   Os declives foram tão acentuados que, juntamente com a estrada de rípio, fizeram um parafuso do freio dianteiro se soltar. É óbvio que o erro foi meu, pois quando montei a bicicleta, em Coyhaique, não apertei direito o tal parafuso. Para piorar, o bagageiro frontal estava preso junto com o freio, ou seja, naquele momento minha barraca e meu colchão não tinham mais suporte. Que Merda! Fiquei um tempo procurando a peça, mas não achei e o jeito foi improvisar com o parafuso do freio traseiro.
   Depois desse contratempo eu continuei a descer, mas diminui consideravelmente a velocidade. Quanto vi, estava novamente em um grande vale cercado por diversas montanhas nevadas. Surreal! Era o Valle do Rio Murta, que meses antes eu havia pesquisado na internet. Aproveitei e tirei muitas fotos.






   Depois de alguns quilômetros pedalando no plano, cheguei à entrada da vila chamada de Bahia Murta, mas continuei meu destino, pois a horas já estavam avançadas e faltavam 35km.

   Os últimos trinta e cinco mil metros do dia foram de arrepiar. Tanto no quesito de beleza, quanto na dificuldade. A parte bela ficou por conta do Lago General Carrera com sua cor variando em azul claro e escuro. É considerado o maior lago do Chile, com 970 km2. Um espetáculo da natureza, igualzinho eu havia imaginado. Parei, tirei fotos, segui, parei novamente, tirei mais fotos e assim fiz durante boa parte deste trecho. Deu uma vontade de mergulhar naquelas águas, mas lembrei que elas são compostas pelo derretimento da neve que fica no cume das montanhas e a vontade logo foi embora.






 
   Com tanta beleza natural para observar, os km passaram rapidamente e quando vi só faltavam seis. Nesta hora um motoqueiro passou e conversou comigo. Ele estava viajando desde o Alaska, mas sua aventura foi feita em partes, sempre nas férias dele. Combinamos de prosear mais na vila de Puerto Tranqüilo e então segui na minha pedalada. Foi então que começaram as dificuldades. Três ou quatro subidas de “cair o cú da bunda”, que somadas aos 120km que eu já havia percorrido no dia, me deixaram exausto. Tamanha foi a minha alegria em chegar na vila. Ufa! Detalhe que eram 19h, ou seja, fiquei 12h nesse trajeto.


   Logo avistei o motoqueiro conversando com alguns moradores do local e já fiz amizade com o pessoal. Eles me indicaram um camping e me explicaram como eram feitas as excursões para as Capelas de Mármore (que eu iria conhecer no dia seguinte).
   Encontrei o camping, montei acampamento, tomei um banho e fui comer, pois havia passado o dia com pães, doce de leite e malto dextrina. A comida não foi barata, mas saciou minha enorme fome.
   Assim finalizei um dia difícil de pedalada. Cento e vinte seis mil metros percorridos em 12h

30/12/2010 - Puerto Tranquilo

   Dormi igual um bebê e acordei bem cedo conhecer as famosas Capelas de Mármore (grutas esculpidas nas rochas pela ação das águas e ventos durante muitos anos). Antes das 7h da manhã eu já estava na frente da agência de turismo que faz o trajeto de barco até as capelas, mas descobri que deveria esperar um tempo até que alguns turistas chegassem, pois assim o preço ficaria menor.


   Enquanto esperava conheci um viajante/vendedor ambulante chileno chamado Hilário. Hilário, com seu jeito hippie, usava óculos, tinha longos cabelos e uma enorme barba, ambos brancos que denunciavam toda a sua experiência de vida. E que experiência! Ele já havia viajado por vários países, sempre no estilo mochilão e agora estava mais uma vez dando uma volta pela sua pátria mãe. Pretendia ir até Cochrane e depois voltar para Santiago, onde residia.

   Além da prosa com o Hilário, aproveitei para conhecer a vila um pouco melhor. Andei bastante pelas poucas quadras do local, visitei a única igreja e tirei fotos de uma pequena cascata que fica na saída da vila.



   Ao voltar encontrei um casal francês que também gostaria de conhecer a Capelas de Mármore. Juntos conversamos com um barqueiro e o passeio saiu por 7000 pesos chilenos pra cada, aproximadamente R$ 21,00.
   A navegação pelo lago General Carrera por si já era fantástica, mas quando chegamos às famosas Capelas, fiquei deslumbrado.


   A combinação da cor azul turquesa do lago com os diversos tons de cinza das capelas era algo surreal e ficava ainda melhor quando o sol fazia reflexos nas formações rochosas.
   Não é a toa que muitos guias de viagem listam o local como um dos mais espetaculares da Terra.
   Aproveitei ao máximo o passeio. Tirei muitas fotos, filmei bastante e com toda certeza esse foi o ápice da viagem.













































   Ao voltarmos me despedi do casal europeu e passei o resto do dia curtindo o ócio. Dormi, escutei música, fui na lan house e ao entardecer resolvi dar um rápido mergulho nas águas gélidas do General Carrera. Confesso que não fiquei muito a vontade com a água gelada, mas valeu o momento.



   Depois ainda encontrei os cicloturistas pelos quais eu havia passado dois dias antes, inclusive um francês que resolveu parar para conversar um pouco, antes de ir para um camping fora da vila.
   Ao voltar para o camping no qual eu estava conheci duas lindas israelitas lindas: Ganit e Cdren. Tentei algo com uma delas, mas levei um fora sutil. (risos)

31/12/2010 - Puerto Tranquilo - Cochrane - 120 km

   Os primeiros oito quilômetros do dia foram de subida, sempre com o imponente Lago General Carrera do lado esquerdo. Confesso que tentei visualizar as Capelas de Mármore do alto, mas não consegui. Sendo assim, segui.



   Depois percorri um bom trecho em descida, com algumas pequenas subidas, e cheguei ao belíssimo Lago Trapial. Tirei algumas fotos e continuei, pois o caminho era longo.


   O legal era que, mesmo sempre tendo o General Carrera ao lado, em nenhum momento a paisagem de tornava monótona, pois a cada quilômetro percorrido apareciam diversas paisagens dignas de um belo quadro. 
   Quando já havia percorrido uns 20 km o terreno ficou totalmente plano por dez mil metros e a estrada deixou de ter pedras soltas para ser quase um asfalto feito de terra. Perfeito! Aproveitei para colocar um ritmo mais forte, pois estava louco para conhecer a Ponte General Carrera, local onde supostamente termina o lago homônimo, pois após a ponte ele se mistura com o Rio Baker, ambos indo desaguar no oceano.







   A tal ponte demorou um pouco para aparecer, mas quando surgiu no horizonte, fez jus a sua fama de imponente. 
   Aproveitei para fazer um pequeno descanso enquanto tirava inúmeras fotos da estrutura metálica. Mas Aramis, não era só uma ponte? Sim, contudo o contexto na qual ela está inserida é o que faz toda a diferença. No momento em que fiz o roteiro fiquei imaginando como seria a minha passagem pelo local e agora posso dizer com certeza absoluta que foi muito melhor do que imaginei. Até hoje lembro da sensação de olhar para o lado direito da ponte e ver o "fim" do lago com montanhas nevadas ao fundo. Show!







   Ao seguir eu estava no local denominado Bahia Calatina, que compreende os lagos Negro, Chelenko e Bertrand, mas como nem tudo é um conto de fadas, a estrada voltou a ser cheia de pedras e após o trevo para Chile Chico, as subidas apareceram. Nesse momento faltavam apenas 18 km para Puerto Bertrand, onde eu iria "almoçar".


   Subi uma ladeira bem íngreme e parei para descansar em um mirante do lago Negro. Eu estava exausto, mas a paisagem tratou de recarregar minhas forças. Do alto pude ver o caminho pelo qual havia passado, o lago Negro e o já saudoso General Carrera.




   Depois desci proporcionalmente à subida anterior e fui parar no lago Bertrand. Minha intenção era seguir, mas não aguentei parei.
   Confesso que tive vontade de passar o resto do dia ali, pois tudo era "perfeitamente perfeito". O Hilário tinha me falado desse local, mas sinceramente eu não fazia ideia de quão belo era. Sabe aqueles lugares nos quais você sempre uma paz? Pois é, assim foi para mim o lago Bertrand. Sentei embaixo de algumas árvores e comi uma maçã. Depois segui.





   Enfrentei alguns quilômetros de subida forte e depois uma bela descida até chegar na cidade/vila de Puerto Bertrand. Ali conversei com uma família de brasileiros que estava num jipe, comprei um refri, um pacote de bolachas e fui para um trapiche para apreciar o Rio Baker com suas águas de cor azul turquesa.








   O período da tarde foi dedicado aos 50 km entre Puerto Bertrand e Cochrane. Trajeto que se revelou muito mais difícil do que eu tinha imaginado e planejado. Minha média foi de míseros 10 km/h.
   Ao sair de Puerto Bertrand fui apreciando a parte mais bonita do rio Baker, o início. Não conseguia parar de tirar fotos....hehehe. Depois começou um sobe e desce infinito que levou todas as minhas forças e também o meu humor.









   No fim de um aclive tentei colocar na coroa maior para que pudesse descer mais rápido e tive a infeliz surpresa de não conseguir. Que droga! A marcha dianteira havia travado. Tentei de vários modos arrumar, mas como não obtive sucesso, deixei do jeito que estava. Pelo menos já estava na coroa menor, perfeita para transpor as subidas.
   Doze quilômetros após Bertrand avistei a confluência entre os rios Baker e Nef. Isso deixou a cor do Baker menos azul.



   Segui subindo e descendo, mas confesso que as subidas parecias bem maiores. Psicologicamente eu estava mal e toda vez que avistava um aclive, xingava bem alto.
   Lembro que gritei ao visualizar o tamanho de uma subida que teria pela frente e depois olhei para os lados, imaginando se alguém teria escutado, mas é claro que não, pois eu estava sozinho no meio do nada. Então parei, tomei o resto do refri que sobrou do "almoço" e tentei colocar os pensamentos no lugar. Segui um pouco mais calmo, só um pouco...hehehe
   Passei por precipícios com o rio bem abaixo e por paredões incríveis. Acho que se fizesse esse trecho novamente, tentaria aproveitar mais, pois o caminho é fantástico.















   Pois bem, a 5 km da cidade de Cochrane ainda tive a infelicidade de ter a corrente quebrada. Imaginem uma pessoa furiosa. Eu tinha a chave para arrumar a corrente, mas como não tinha prática e estava próximo da cidade, decidi ir apenas no embalo. Pelo menos tinha bastante descida nessa última parte.

   Na cidade encontrei uma borracharia onde pedi para arrumarem a corrente e por sorte, ao lado encontrei um camping.
   A raiva por tudo o que aconteceu só passou após um demorado banho quente.
   Em seguida peguei a bike, olhei o conserto e fiquei torcendo para que ele aguentasse (mesmo sabendo que ficou uma bosta).

   Depois ainda fui conhecer a cidade e para minha surpresa encontrei o Hilário. Proseamos um pouco e depois fomos para o camping onde ele estava, pois me disse que lá havia outro cicloturista. No camping, que ficava na rua da igreja, tomamos uma cerveja e trocamos muitas informações. Sinceramente não lembro o nome do cicloturista, mas sei que ele era argentino e que ficou admirado com a quilometragem que eu fazia por dia....hehehe






   
De volta ao "meu" camping conversei com um casal americano (Amy e Josh) que fazia um mochilão pela Patagônia. Quando eles comentaram que iriam passar a virada de ano na parte mais alta da cidade eu me lembrei que era dia 31 de dezembro. Pensei em ficar acordado, mas devido ao cansaço desisti da ideia.

01/01/2011 - Perrengues em Cochrane

   Comecei o dia com medo. Medo da gambiarra feita na corrente não aguentar. Devagar e com muita calma fui pedalando, mas quanto enfrentei uma subida mais forte, uns 5 km depois de Cochrane, a corrente arrebentou em dois lugares. PQP! Fiquei com tanta raiva que joguei-a longe e voltei para o camping empurrando a bike.
   Todos ainda dormiam e eu sem saber o que fazer, resolvi caminhar pela cidade. Perambulei pelas ruas para me acalmar e quando consegui vi o quão burro fui. Tudo isso ocorreu pois eu, cansado e sem pensar direito, ao invés de arrumar a corrente no dia anterior, decidi pedir ao borracheiro. Atualmente tenho certeza que isso não aconteceria mais, pois aprendi com os erros.
   Pensei, pensei, pensei e tomei a decisão de voltar até Coyhaique, arrumar a bike e novamente segui para Cochrane. Na minha cabeça tudo OK, entretanto o destino quis que naquele dia, 1º do ano, nenhum ônibus fizesse o trajeto que eu precisava.
   De volta à estaca zero acabei encontrando o Hilário e eis que surgiu um luz no fim do túnel: Ele iria tentar pegar um carona para voltar a Puerto Tranquilo e com sorte eu poderia ir junto.
   Ficamos no local mais estratégico possível: um ponto de ônibus na saída da cidade.

   Resolvi desmontar a bicicleta e colocar na mala para ocupar menos espaço e também para passar o tempo. As horas foram passando e as esperanças diminuindo. A parte boa daquela situação foi que pude conhecer bem o Hilário e passei a admirá-lo ainda mais. Ele era a simplicidade em pessoa.
   Ao fim do dia não havíamos conseguido nenhuma carona e resolvemos voltar para os campings. Infelizmente nunca mais o vi, mas com certeza ele dele estar viajando por esse mundão...hehe
   No camping conversei com o dono e fui autorizado a deixar as coisas ali para conhecer a região (Caleta Tortel, Villa O'Higgins, Candelário Mancilla, etc) de ônibus. Voltando era só pegar a bagagem e ir embora.
   Quando as coisas pareciam ter tomado um rumo, eis que o ciclista francês, com o qual conversei em Puerto Tranquilo dois dias antes, apareceu na cidade. Fiz um aceno e ele imediatamente entrou no camping. Seu nome era Antoine e veio estudar espanhol em Santiago. Nas férias estava pedalando pela Carretera Austral e pretendia ir até El Chaltén, na Argentina. Durante a resenha contei a minha situação a ele e para minha surpresa ele tinha uma corrente para me dar. Pensem na felicidade do caboclo aqui. Agradeci-o infinitas vezes: Gracias, gracias, gracias, ...
   Antoine decidiu ficar no camping e enquanto eu montava minha bicicleta, conversamos bastante. Até combinamos de fazer o trecho do dia seguinte juntos, mesmo que isso significasse diminuir o meu ritmo.




02/01/2011 - Cochrane - Meio do caminho - 100 km

   Acordei cedo, desmontei acampamento, passei no supermercado, encontrei uma loja onde vendia corrente, comprei duas - uma pra mim e outra pro Antoine - e esperei o francês terminar seus afazeres. Perto das dez da manhã ele disse que iria demorar um pouco, pois precisava ir numa lan house que pelo jeito não abriria tão cedo. Então decidi que iria seguir sem ele. Agradeci-o novamente e me despedi.
   A saída ocorreu por volta das 11h  e a ideia era percorrer o máximo número de quilômetros até às 20h.
   Pedalei novamente pela subida onde ocorreu o perrengue do dia anterior e tentei tirar uma foto do local exato no qual eu tive o acesso de raiva....hehehe.


   Confesso que esperava um trajeto mais puxado, contudo os aclives íngremes duraram somente até os 10 km e o resto foi "moleza".
   Tirei várias fotos enquanto contornava a Laguna Esmeralda e depois segui quase que num plano até a descida da cuesta El Barrancoso, aproximadamente 40 km ao sul de Cochrane. Entre a laguna e a cuesta tirei belas fotos de alguns lagos com montanhas nevadas ao fundo e ainda tive que fazer um ajuste na corrente que estava muito grande. Um senhor que estava passando de carro, parou e fez questão de me ajudar. Agradeci-o pelo auxílio e segui.






  Ao chegar à cuesta El Barrancoso tive que tomar muito cuidado. Fiquei com um olho na belíssima paisagem e com o outro na estrada, cheia de curvas, paredões e precipícios. Na parte em que o trajeto faz zigue-zague tive que parar e registrar o momento. Felicidade imensa!





   A descida, que durou uns 5 km, teve seu fim quando atravessei a ponte do rio Barrancoso.

   Após a ponte, o trajeto foi totalmente plano e por diversos momentos apresentou um túnel feito de árvores. Atravessando um deles vi um local que seria propício para um camping selvagem e quase parei, mas em vista da quilometragem baixa (aprox. 50 km) resolvi continuar.




   Comecei a ter a presença de rios do lado direito e isso me animava bastante, pois o banho diário estaria garantido.
   Fiz uma pausa de uns 5 minutos para comer uma maçã e segui pela carretera.







  Quando as horas estavam próximas das 20h, comecei a ficar atento a qualquer lugar que pudesse servir de camping.  Encontrei um local, mas percebi que ficava um pouco longe do rio e então segui. Alguns quilômetros adiante vi um cara com roupa de ciclismo entrando numa espécie de trilha e fui conferir. Para minha surpresa encontrei um clarão no meio da mata onde um casal alemão estava acampado. Perfeito! Esse foi o meu pensamento, pois além de tudo eu teria mais segurança.
   Conversei, num inglês horrível, com o casal e descobri que eles haviam saído de Cochrane a dois dias, percorrendo 50 km por dia, ou seja, eu havia percorrido 100 km num dia que saí as 11h.

Montei acampamento e fui lavar a alma no rio. Que água gelada.....hehehe.




   Ao voltar descobri que o rio era o Baker. Uau! Por essa eu não esperava.
   Por fim tentei conversar mais um pouco com os alemães, mas como eles não falavam espanhol e eu só arranhava no inglês, trocamos apenas poucas frases.

03/01/2011 - Meio do caminho - Puerto Yungay - Meio do caminho - aprox. 100 km

   Desmontei acampamento, arrumei minhas coisas, me despedi dos alemães e comecei a pedalar.
   Logo no início, um cachorro que parecia perdido, começou a me seguir. Tirei algumas fotos e dei o nome de Wilson, fazendo alusão ao filme Náufrago.  Após uns 5 km cheguei na bifurcação entre Puerto Yungay e Caleta Tortel. As distâncias eram: 30 km para Yungay e 22 km para Tortel. Fiquei num dilema enorme, pois gostaria de conhecer a vila de Caleta Tortel (famosa pelas passarelas de madeira às margens do rio Baker) , mas teria que ir e voltar pelo mesmo caminho.  Enquanto eu decidia o que fazer, o Wilson ficou parado me esperando. Se pudesse falar acho que diria: Decide logo aí, pô!


   Pensei, pensei e resolvi ir direto para Puerto Yungay, onde eu deveria pegar um barco às 11h.
  Ao prosseguir, Wilson e eu começamos a enfrentar algumas subidas bem íngremes. Fui bem devagar, pois não queria ter nenhum problema com a corrente....hehehe.
   Subia devagar, descansava no fim e descia bem rápido, sempre com o Wilson junto. Quando percebi já estava em Yungay. Olhei no odômetro e vi que foram apenas 22 km, ou seja, a placa estava com as distâncias trocadas.











   Dei uma olhada geral e vi alguns cicloturistas tirando fotos numa placa. Não perdi tempo e fui prosear. Eram 3 austríacos (Albert, Frank e Anita) e um suíço (Markus). O casal Anita e Frank estava pedalando desde o Equador e os outros estavam fazendo um pedal pela Patagônia.
   Enquanto conversávamos notei que a placa era a indicação do término da carretera austral e na hora pedi para que o Markus tirasse um foto.



   Depois dei adeus ao Wilson e fui direto para o barco que faz a travessia do fiorde Mitchell. Lembrando que fiorde é uma entrada de mar, ou seja, nessa viagem foi o meu primeiro encontro com o oceano Pacífico....hehehe.







   Após a travessia, faltavam somente 100 km para Villa O'Higgins, mas o objetivo dos europeus não era chegar na cidade nesse dia, pois assim iriam economizar com hospedagem. Decidi partilhar de mesma ideia, afinal economizar é sem bom.
   Percorremos 20 km planos, onde pude perceber que o ritmo do pessoal era alto, até que começaram as subidas. Foram três ascensões íngremes, de "cair o cú da bunda"....hehehe
   Fui no meu passo e acabei ficando para trás logo na primeira. Tirei fotos, filmei e aproveitei a paisagem. No fim, lá estava o pessoal fazendo uma pausa para comer algo.








   Depois descemos bastante e iniciamos o segundo aclive, onde encontramos no sentido contrário outros ciclistas, incluindo a mulher mais linda que eu já vi viajando de bicicleta, uma holandesa.    Proseamos um pouco, trocamos informações e seguimos. Quase que fui atrás dela. (risada sacana)



   Na terceira e última subida forte fiquei bem atrás e só fui encontrar o pessoal quando já haviam encerrado a pedalada, uns 20 km depois do fim dos aclives.
   Aqui vale lembrar que cada subida tinha aproximadamente 5 km, sendo a descida na mesma proporção. Isso ocasionou uns 30  km de sofrimento e depois mais uns 20 km de dificuldade mediana, com alguns lagos, algumas cachoeiras e muitas, mas muitas árvores cortadas.













04/01/2011 - Meio do caminho - Villa O'Higgins -  30 km

   Acordei cedo e parti sem os europeus, pois não tive paciência de esperar o despertar deles. Apenas deixei um bilhete.
   Os últimos 30 km até Villa O'Higgins foram relativamente fáceis, com algumas pequenas subidas e muito rípio. A parte mais interessante foi quando contornei o lago Cisnes, pois a mistura de uma pequena chuva com os tímidos raios de sol resultou num belíssimo arco-íris. Registrei o momento e segui.





   Ao chegar, tirei foto na placa que indica o local e fui direito para o camping/hostel El Mosco. Decidi ficar no hostel, pois além da chuva, o frio já estava aumentando.


   Lá encontrei muitos viajantes, uma música boa e internet livre. Tomei um banho bem quente e me instalei num dos quartos.
   Na hora em que eu iria sair para comprar as passagens dos barcos que teria pela frente, os europeus chegaram e também decidiram ficar no hostel.
   Ao sair, pude conhecer um pouco da pequena Villa O'Higgins, com aproximadamente 600 habitantes. Conheci a igreja, as poucas quadras, alguns estabelecimentos e comprei as benditas passagens para atravessar o lago O'Higgins, visitar o glaciar homônimo e atravessar o lago del Desierto, já na Argentina.
Mais informações aqui: http://www.villaohiggins.com/
   Ao voltar para o El Mosco falei com minha mãe ao telefone e tive a notícia que se eu não voltasse até dia 20 de janeiro, perderia a inscrição para o mestrado. Puts, e agora?
   Fiquei sem saber o que fazer e decidi dar mais uma volta. Conheci o resto do local, inclusive subi uma pequena trilha e pude tirar uma foto legal da Villa.


   Na volta tinha já tinha a solução: eu iria pedalando até El Chaltén e depois faria o resto do caminho de ônibus. Iria conhecer o Glaciar Perito Moreno e a cidade de Ushuaia, mas deixaria para trás o parque Torres del Paine.
   Hoje me arrependo de não ter pedalado tudo o que tinha planejado e muito menos ter completado o mestrado, mas como foi uma escolha minha, tenho que enfrentar as consequências. Provavelmente algum dia eu volte lá para pedalar a parte que faltou.
   Por fim passei o resto do dia no aconchego do hostel.

05/01/2011 - Villa O'Higgins - Glaciar O'Higgins - Candelario Mancilla

   Saímos com um baita frio e pedalamos até a Bahia Bahamondez, onde atualmente existe uma placa avisando sobre o fim da Carretera Austral. Então esqueçam aquela placa em Puerto Yungay, ela está desatualizada....hehehe.
   Ao chegarmos no local de embarque encontrei o casal americano Amy e Josh, os mesmos que conversei em Cochrane. Eles não iriam conhecer o glaciar, pois pretendiam ver vários glaciares em um passeio maior, entre Punta Arenas e Puerto Montt.





   Colocamos as bicicletas no barco e começamos a nossa aventura pelo lago O'Higgins.
Desde o começo a paisagem era fantástica. Água azul clara, montanhas nevadas e algumas cascatas.
   O único problema foi o frio. Era enorme e se agravava com o movimento do barco, fazendo com que o vento batesse mais forte. Tive que usar três calças (ciclismo, normal e impermeável) e três blusas (2ª pele, jaqueta de pesca e anorak).
   Depois de um tempo, atracamos na ilha de Candelario Mancilla e os que não iriam conhecer o glaciar desembarcaram. Amy e Josh se despediram e sumiram na ilha.









   Após alguns minutos já estávamos navegando novamente, desta vez em direção ao glaciar.
  Começamos a ver pequenos icebergs pelo lago e sabíamos que logo veríamos o imponente glaciar O'Higgins. Bingo! Ao vê-lo os europeus ficaram admirados e eu entrei em êxtase.
   Pela primeira vez na minha vida eu estava diante de uma geleira. E que geleira! Eram entre 2 e 3 km de extensão e aproximadamente 30 m de altura. "Fantasticamente fantástico". Tirei muitas fotos e filmei bastante.



























   Antes de ir embora, ainda tomamos um uísque com o gelo de um iceberg. Me senti importante...hehehe.
   Na volta tirei um cochilo no barco e nem percebi o tempo passar. Quando acordei, já estávamos quase chegando em Candelario Mancilla.
   Desembarcamos e logo encontramos um ótimo local para acampar, de frente para o lago O'Higgins.




   Para finalizar o dia espetacular, jantamos na casa de um morador chamado Ricardo. A ceia, que continha batata cozida, salada e carne, estava deliciosa. Ricardo também alugava cavalos para fazer a travessia das bagagens pela ilha e os europeus logo fecharam negócio. Melhor pra mim, pois se estivesse sozinho faria o trajeto com a carga, mas junto do pessoal paguei um preço ínfimo pelo transporte das bagagens. 

06/01/2011 - Candelario Mancilla - Lago del Desierto - Punta Sur

   Acordamos cedo, arrumamos as coisas, deixamos as bagagens e partimos. Primeiro Anita e eu, depois Bert e Markus e por último o Frank, pois esperou que o Ricardo pegasse as bagagens.


   Passamos pela aduana chilena e logo depois começamos a subir por uma estrada cheia de pedras soltas.
   Apesar do caminho ser ruim, a paisagem era ótima. Primeiro tivemos a presença do lago O'Higgins do lado direito, depois montanhas nevadas, muitas árvores, alguns rios (que foram atravessados a pé), uma laguna, o lago del Desierto e o gigantesco monte FitzRoy.

















   Confesso que ao planejar a aventura eu estava com medo desse trecho, pois era pra ser a parte mais difícil da viagem. Acho que se eu estivesse sozinho, a dificuldade seria enorme, mas como éramos cinco aventureiros sem bagagem, todos se ajudando, o trajeto ficou relativamente tranquilo.
   Fizemos uma pausa para lanche na divisa entre os dois países. Ali pedi para o Markus tirar uma foto na qual eu estava ao mesmo tempo no Chile e na Argentina. Eu fiquei ridículo, mas valeu o registro....hehehe



   Na parte argentina a estrada virou uma trilha cheia de obstáculos a serem vencidos: galhos, vegetação e lama. Aos poucos fomos avançando, sempre com o FitzRoy no horizonte. Tiramos muitas fotos dele.








   Chegamos às margens do lago del Desierto por volta das 13h e passamos a tarde inteira curtindo o local.
   Lavamos as bikes, conversamos e sim, entramos nas águas congelantes do lago. Confesso que fiquei menos de 2 minutos na água e depois fiquei um bom tempo no sol para me aquecer.





   Por volta das 19h pegamos o barco que nos levaria para a Punta Sur (ponta sul) do lago. A travessia foi rápida e ao chegarmos, procuramos um local para acampar.
   Quando eu já estava pronto para descansar, vi uma placa indicando o glaciar Huemul e não tive dúvidas em seguir a trilha. Dessa vez fui sozinho, pois meus companheiros europeus não quiseram ir.
   Acelerei o passo e percorri a trilha rapidamente. Ao chegar vi um lago, o glaciar e também o FitzRoy ao longe. Show!







   Depois voltei ao acampamento, conversei com o pessoal, comprei umas bolachas num pequeno trailer-quiosque e fui dormir.

07/01 e 08/01/2011 - Punta Sur - El Chaltén - El Calafate

   Acordei com o tempo nublado, comi algo, me despedi do Frank e deixei um abraço para os que estavam dormindo, pois provavelmente eu não iria os ver mais.
   O caminho entre a Punta Sur e El Chaltén foi de aproximadamente 40 km relativamente fáceis. No começo foi acompanhando o rio de las Vueltas, depois passou por um pequeno sobe e desce e por fim entrou no parque nacional Los Glaciares. A região, como toda Patagônia, é muito bonita.





   Ao chegar em El Chaltén, considerada a Meca dos escaladores, enfrentei uma garoa muito fria e infelizmente não pude tirar uma foto da cidade com o Fitzroy, pois o mesmo estava encoberto.



   Em El Chaltén a minha pedalada havia acabado e decidi pegar um ônibus até El Calafate, onde iria conhecer o glaciar Perito Moreno.
   Tirei uma foto na placa de boas vindas à cidade, comprei um alfajor gigante e fui para a rodoviária.


   Ao entrar no ônibus senti uma frustração por não pedalar o que tinha planejado, mas conforme já expliquei anteriormente, foi por um motivo maior.
   Chegando em El Calafate comprei passagens para conhecer o glaciar Perito Moreno e para ir até Ushuaia, ou seja, não iria conhecer o Torres del Paine. Paciência.
    Depois fui para um albergue, tomei um banho e saí para conhecer a cidade.
  El Calafate, que é conhecida como a Capital Nacional de los Glaciares, me encantou. Perambulei pela rua principal onde pude ver casas com muitas rosas em seus quintais, tirei foto de algumas placas importantes, passei no supermercado e de noite fui comer uma pizza.









   No albergue havia uma quantidade grande de viajantes. Conversei com alguns, mas logo me recolhi, pois tinha que levantar cedo para conhecer o glaciar.

   No dia seguinte deixei a bicicleta no albergue e fui de ônibus até o glaciar Perito Moreno. Fiz questão de pegar um dos primeiros lugares, pois poderia ter uma vista panorâmica do trajeto. Ao meu lado estava um simpático espanhol chamado Xavier. Fomos conversando e tirando fotos durante toda a visita ao glaciar.
   A geleira tem aproximadamente 5 km de extensão e em alguns pontos chega a ter 60 m de altura. É realmente impressionante, mas confesso que achei o local muito turístico. Eu estava imaginando algo como o glaciar O'Higgins, que é "selvagem", mas no Perito Moreno existe uma estrutura enorme de passarelas que, ao meu ver, tiram o espírito de aventura. Tentei esquecer isso e tratei de focar a natureza.



























   Ao voltar para a cidade, peguei minha bicicleta no albergue e fiquei a tarde inteira curtindo El Calafate e refletindo sobre a viagem. Ao anoitecer fui comer pizza e encontrei uma família gaúcha. Conversamos um pouco e a moça fez questão de tirar uma foto com a bike. Pouco depois, estava caminhando quando um coreano que vivia em São Paulo me chamou e fez uma convite para um jantar. Jung e sua mãe insistiram, mas expliquei que já havia comido e por fim eles me deram um saquinho de amendoim.




   Por volta das 22h fui para a rodoviária e lá fiquei esperando meu ônibus que partiria depois da meia-noite.

09/01 e 10/01/2011 - El Calafate - Ushuaia

   Fui de ônibus até Rio Gallegos, onde esperei outro coletivo por mais de uma hora.

  Pouco mais de meia hora depois da saída de Rio Gallegos, já estavas nas aduanas para fazer os trâmites.
   Depois veio um bom trecho até chegar ao famoso Estreito de Magalhães. Nome dado em homenagem ao navegador português Fernão de Magalhães que foi o primeiro europeu a navegar pelo local, fazendo uma ligação entre os oceanos Atlântico e Pacífico.
   A região, que é famosa pelo seu clima hostil, com ventos altíssimos e muito frio, mostrou um pouco do seu poder enquanto fazíamos a travessia. Em alguns momentos estava difícil ficar de pé.
Do outro lado já estava a Tierra del Fuego (Terra do Fogo) e novamente bateu um remorso enorme de não estar pedalando.






   Depois o ônibus seguiu para as aduanas, entrou novamente na Argentina e foi para Rio Grande.
   Em Rio Grande o ônibus estragou e foi preciso esperar por uma hora. Nesse tempo fiz amizade com um mochileiro estadunidense chamado Joe. Ele estava viajando por 1 ano e pretendia ficar alguns dias em Ushuaia. Combinamos de prosear mais ao chegarmos em Ushuaia.
Já na estrada novamente, o coletivo passou por Tolhuim e seu lago Fagnano, pelo belíssimo Paso Garibaldi com suas imponentes montanhas e chegou na cidade do fim do mundo, como é conhecida Ushuaia.
   No desembarque Joe esperou que eu montasse a bike e depois fomos decidir o que fazer. Conversamos com o vigia de um posto de gasolina e o mesmo nos autorizou a deixar as coisas numa salinha enquanto íamos comer pizza. Detalhe que já era mais de meia noite...hehehe
   Andamos pelas ruas, procuramos e encontramos uma pizzaria aberta. Logo depois chegaram algumas meninas que também estavam no ônibus. A pizza rendeu boas lembranças...hehehe
   Depois de um longo tempo nos despedimos das meninas, tiramos fotos na famosa placa de Ushuaia e decidimos dormir na rua mesmo, ou melhor, no banco(eu) e no chão(Joe) do posto de gasolina.



   No meio da noite fui acordado por alguns turistas que me associaram a um mendigo e me ofereceram pão e refrigerante. Agradeci, mas não aceitei.
   De manhã o Joe ficou na cidade e eu fui pedalando até o aeroporto para comprar minha passagem de volta. Infelizmente as empresas aéreas estavam fechadas e tive que voltar.
   Depois fizemos um passeio pelo canal de Beagle, onde pudemos conhecer uma ilha cheia de pinguins e o farol mais austral do mundo. Tiramos muitos fotos.















   Na volta Joe foi para um albergue e eu para uma agência de turismo. Tentei comprar passagens, mas não consegui. Então decidi voltar ao aeroporto para tentar a sorte. Enfrentei um vento tão forte que empurrei a bicicleta nos últimos metros até a entrada, mas outra vez não consegui passagem.
   Com o vento a favor voltei rapidamente para o centro da cidade e, teimoso que sou, resolvi entrar mais uma vez na agência de turismo. Bingo! Uma pessoa tinha acabado de desistir de um voo para o dia seguinte.
   Aliviado, fui até o albergue que o Joe tinha falado: Patagônia País. Lá encontrei viajantes de todo o mundo, mas não tive tempo de conversar com eles, pois como meu voo era pro dia seguinte, eu tinha que conhecer ao máximo a cidade.
   Andei pelas ruas, comprei coisas, tirei fotos e tentei aproveitar ao máximo. Ushuaia é uma belíssima cidade, vale a pena conhecer.



   De volta ao albergue, tive uma pouco de prosa com o pessoal, me despedi do Joe e fui dormir.
   Finalizei a viagem com uma pedalada tranquila entre o albergue e o aeroporto, onde desmontei a bike e curti a volta.


   Atualmente, refletindo sobre a viagem, vejo que fiz a coisa certa em pedalar só um trecho, pois era uma oportunidade de fazer um mestrado. O que com certeza fiz errado, foi abandonar o mestrado, mas agora não adianta reclamar....hehehe
Talvez daqui a algum tempo eu volte no extremo sul das américas para fazer o trajeto que não pedalei, pois a PATAGÔNIA E A TERRA DO FOGO SÃO MARAVILHOSAS.






Um comentário:

  1. SHOWWWWWW !!!!!!

    BORA FAZER O RESTANTE DESSE TRAJETO ENTÃO ARA-MAN !

    MENDIGO ... KKKKKKKK

    DUCARAIO TUDO ACIMA !!!

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