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quinta-feira, 1 de maio de 2014

Pedal Nordestino II - A realização de um sonho.

   Desde criança sempre fui fascinado por praias e quase todas as minhas férias escolares foram passadas no litoral paranaense. Quando comecei a praticar o cicloturismo resolvi conhecer o litoral catarinense e fiquei deslumbrado com tanta beleza ao ponto de sonhar com o resto da costa brasileira até os Lençóis Maranhenses.
   Sonho que, devido ao tamanho continental de nosso país, foi realizado aos poucos. Primeiro teve a aventura intitulada CuritiBahia, depois foi a vez do Rio Grande do Sul e em seguida teve o pedal entre Natal e Salvador que despertou em mim uma grande vontade de conhecer o resto do nordeste. Pois é, a vontade foi saciada em janeiro de 2014, numa pedalada mágica entre Natal e São Luis, na qual pude conhecer praias paradisíacas e pessoas incríveis. 
   
A felicidade da realização de um sonho é tão grande e quase impossível de se transmitir em palavras, mas mesmo assim vou tentar. Abaixo segue o relato:


1º Dia - Paranaguá/PR - Curitiba/PR - Natal/RN - 117 km
2º Dia - Natal/RN - São Miguel do Gostoso/RN - 137 km
3º Dia - São Miguel do Gostoso/RN - Galinhos/RN - 88 km
4º Dia - Galinhos/RN - Ponta do Mel/RN - 124 km
5º Dia - Ponta do Mel/RN - Canoa Quebrada/CE - 144 km
6º Dia - Canoa Quebrada/CE - Morro Branco/CE - 87 km
7º Dia - Morro Branco/CE - Folga
8º Dia - Morro Branco/CE - Fortaleza/CE - 105 km
9º Dia - Fortaleza/CE - Folga - 27 km
10º Dia - Fortaleza/CE - Lagoinha/CE - Gualdrapas/CE - 151 km
11º Dia - Gualdrapas/CE - Acaraú/CE - 127 km
12º Dia -Acaraú/CE - Jijoca/CE - Jericoacoara/CE - 44 km
13º Dia - Jericoacoara e Jijoca/CE - Folga
14º Dia - Jijoca/CE - Chaval/CE - 129 km
15º Dia - Chaval/CE - Piauí - Tutóia/MA - 190 km
16º Dia - Tutóia/MA - Barreirinhas/MA - 47 km
17º Dia - Lençóis Maranhenses - Folga
18º e 19º Dia - Barreirinhas/MA - São Luis/MA - 251 km



06 e 07/01/14 - Paranaguá – Curitiba – Natal – 117 Km

   Assim como fiz na viagem anterior, fui pedalando até o aeroporto internacional Afonso Pena, em Curitiba. O trajeto, que é praticamente o quintal da minha casa, foi percorrido tranquilamente em 5h e o cansaço da subida de quase 1000m foi embora enquanto eu esperava o avião. Nessa espera também aproveitei para avisar o Fernando Lafayete, meu anfitrião em Natal-RN, sobre a minha chegada no dia seguinte. Ele confirmou sua disponibilidade para me receber em sua casa e me informou o endereço do seu serviço.
   Embarquei e apaguei durante o vôo. Ao chegar em Natal, as 2h da madrugada, tive a infeliz surpresa de ter a bagagem (bike) extraviada. Puts! E agora? Preenchi a ficha e fui informado que a bike poderia chegar em até 24h. Caramba! Aconselharam-me a ir até um hotel perto do aeroporto, mas decidi esperar no local. Estendi minha toalha num pequeno gramado do lado de fora e tentei cochilar um pouco. As quatro horas da manhã meu celular toca e descubro que minha bike acabara de chegar. Alívio!
   Montei-a bem devagar e saí para pedalando às 6h e 20 min.

   Em pouco tempo eu estava na praia de Ponta Negra, onde fica o famoso Morro do Careca. Como ainda era cedo, poucas pessoas transitavam pelo local e com isso pude aproveitar melhor a paisagem. O Morro do Careca e a praia de Ponta Negra são bonitos, mas não achei nada de surreal, simplesmente normal.







   Em seguida fui para o endereço que o Fernando havia me passado. Ao chegar, tomei um banho, fui ao supermercado e depois fiquei proseando com meu anfitrião.
   O Fernando, que é parente do João Almeida (ciclista que conheci pessoalmente em Recife), já tinha hospedado o Nelson Neto (cicloturista selvagem) em 2013 e agora também estava me ajudando. Desde já agradeço.
   Na hora de almoço fomos comer Chambaril (purê de carne, carne cozida e batata) e a tarde, enquanto o Fernando trabalhava, aproveitei para descansar. Ao fim do expediente, fomos pedalando para sua casa fazendo apenas duas paradas: bicicletaria e pastelaria. Na primeira conversamos com alguns amigos do Fernando e na segunda degustamos um delicioso pastel especial.


  Mais tarde fizemos um passeio de carro pela capital potiguar. Percorremos boa parte do caminho que eu faria no dia seguinte: via costeira até a ponte da redinha. Achei a parte turística muito bonita. Filmei e tirei algumas fotos.


  Por fim, comemos um açaí espetacular. O meu era batido com limão e com pedaços de abacaxi.
  Novamente deixo aqui o meu agradecimento ao Fernando. Obrigado pela sua hospitalidade.


08/01/14 – Natal/RN – São Miguel do Gostoso/RN - 137 Km

   Acordamos cedo, tomamos um café reforçado (pão com manteiga, presunto, banana e suco de uva) e partimos as 06h10min da manhã. 
   O anfitrião me acompanhou até a via costeira e depois seguiu sua pedalada até o serviço. Mais uma vez deixo o meu sincero agradecimento ao Fernando. O cicloturismo é uma família, pois aonde você vai sempre tem um irmão para ajudar.

   Seguindo meu caminho, pedalei pela belíssima via costeira de Natal e pude apreciar a imensidão do oceano atlântico. Passei pela praias de Miami, dos Artistas e do Meio até chegar na ponte da Redinha. Aqui vale destacar que conforme batia o sol, a água parecia mudar de cor. Algumas vezes azul, outras verde. Show!









   Na ponte da Redinha pude ver ao longe o forte dos reis magos e depois segui pela RN-304 em direção a praia de Genipabu.



   Passei pela entrada das dunas, fiz o registro e continuei. Ao chegar à praia fiquei impressionado com a beleza do local. Tinha uma extensa faixa de areia fofa e branca, alguns quiosques e um mar repleto de ondas para nenhum surfista botar defeito. Filmei, fotografei e depois segui para a balsa que atravessa o rio Ceará-Mirim.





   A travessia para bicicleta não tem preço fixo e você paga o quanto quiser/tiver. Dei dois reais e continuei meu trajeto por uma estrada muito tranquila até a praia de Pitingua, onde fiz outra pequena pausa para apreciar o marzão de Deus.






  Ao continuar, deparei-me com um caminho incrível. Dunas, dunas e mais dunas sendo cortadas pela rodovia. Foi impossível não lembrar do Atacama. Meus olhos estavam brilhando com toda aquela beleza natural. Pena que ao chegar na praia de Jacumã a paisagem voltou ao normal.







   Depois pedalei até Miriú, onde peguei água num posto e segui para a BR-101.
   Ao entrar na famosa rodovia que corta o Brasil de norte a sul eu já estava com 60 km percorridos no dia, mas ainda faltava uns 70 km até São Miguel do Gostoso. Foi então que aproveitei a estrada plana e o vento a favor para aumentar rapidamente a quilometragem. A média horária estava sempre acima de 20km/h, com picos de 27 até 30.

   Nesse trecho começaram a aparecer as usinas eólicas que me acompanhariam até Fortaleza. Pedalar ao lado de uma usina eólica é sempre fascinante. Talvez seja pela dimensão dos cataventos.
   Pedalei quase até o fim da BR-101, mas faltando 2 km para terminá-la virei para a esquerda em direção a São Miguel. Hoje me arrependo disso, mas na hora eu estava um pouco cansado e com a água das caramanholas quente que só pensei uma coisa: Chegar o quanto antes.


   Após virar à esquerda, percorri mais 17 mil metros até Gostoso, chegando exatamente quinze minutos antes das 15h.
   Parei num posto e tomei quase um livro de água gelada. Ah, que alívio.
   Depois fui para o centro e conheci a praia da Xepa (praia central). Tirei fotos, filmei e aproveitei bastante o local. A cidade de São Miguel do Gostoso é famosa por suas belíssimas praias com muito vento, sendo propícias a prática de Kite Surf. Fui informado que é a cidade desse esporte.









   Ao voltar para a rua principal conheci o Geraldo, um paulista que largou tudo na grande metrópole do país e montou uma lanchonete em São Miguel. O nome do estabelecimento é Ponto do Pastel. Proseamos um pouco e eu fiquei de voltar mais tarde pra tomar/comer açaí. 
   Voltei para a entrada da cidade e me instalei no kalango's camping, onde conheci o gaúcho Vladimir e sua família (esposa Welma e duas filhas pequenas, Giovanna e Julianna). Rapidamente fizemos amizade e conversamos bastante. Que família incrível. Pra completar, descobri que os donos do camping (Solange e Marcos) são curitibanos que, igual ao Geraldo citado anteriormente, largaram tudo na fria e agitada capital paranaense e foram morar numa tranquila e quente praia do nordeste. 
   Sempre digo que viajo para conhecer lugares, mas muitas vezes o que faz um lugar ser especial são as pessoas. Em São Miguel do Gostoso foi assim. Agradeço imensamente ao Geraldo, ao Vladimir e sua família, ao Marcos e a Solange por fazerem da minha pequena estadia em São Miguel, um momento inesquecível.
   Deixo aqui o link do camping Kalango:

https://www.facebook.com/kalangosclub





  Pois bem, para finalizar o dia fui a pé até o centro, tomei um sorvete, flertei com a loira que atendia na sorveteria, tirei fotos do crepúsculo, tomei/comi açaí, conversei com o Geraldo e com seu filho, voltei para o camping, conversei com o Vladimir, com o Marcos e depois dormi.




09/01/14 – São Miguel do Gostoso/RN – Galinhos/RN - 88 Km

 O terceiro dia no litoral nordestino começou cedo, exatamente as 6h e 20 min. Despedi-me dos amigos que fiz em São Miguel e segui por uma estrada de terra bem ruim até a praia de Tourinhos. Essa praia pertence a São Miguel do Gostoso, mas dista 10 km do centro.



   Tourinhos, assim como toda a região, é fantástica. Infelizmente no horário que passei por ela o sol ainda não brilhava intensamente, porém pude apreciar bem a beleza do local, pois a estrada pela qual eu tive que seguir, contornava a praia. Imagine a combinação de mar, areia branca, flores e usina eólica. Agora acrescente uma enorme sensação de liberdade. “Fantasticamente fantástico”. Pena que depois de alguns quilômetros a praia de Tourinhos foi ficando para trás e quando me dei conta eu já estava no município de Morros. Vinte e dois quilômetros já haviam se passado e cogitei a possibilidade de voltar para o asfalto mais rapidamente, contudo decidi ir para Pedra Grande e isso implicaria em percorrer mais 18 km de terra, areia e costelas de vaca.











   Durante esses 18 km passei por um assentamento onde fiz uma pequena pausa para pedir água numa casa. Fui muito bem atendido pelo Elenilson, vulgo Foginho, que além de saciar a minha sede, informou-me sobre a imperdível praia de Galinhos. Disse que para chegar nessa praia eu deveria ir até Caiçara do Norte e pedalar pela areia por uns 10 km. Ouvi, filtrei as informações, calculei a quilometragem e decidi mudar o roteiro original.
   Agradeci o Elenilson e continuei meu caminho, agora alterado.
   Passei por algumas vilas até chegar em Pedra Grande, onde tive o prazer de pedalar novamente no asfalto. Foram 21km numa estrada tranquila e cheia de usinas eólicas ao seu redor. Certo momento fiquei bem perto de um catavento e puder tirar uma boa foto do mesmo.






   Em Caiçara fui avisado que a maré estava baixando, isto é, seria muito difícil pedalar na areia, mas teimoso que sou, resolvi enfrentar ao invés de esperar algumas horas.
   Confesso que a ideia não foi das melhores, pois a areia estava muito fofa e impedia meu deslocamento. Em alguns momentos tive que empurrar a bicicleta e em outros conseguia pedalar, mas quase sempre o mar dava um banho nos meus pés e na bike. Apesar das adversidades, eu estava feliz. A energia do local era algo mágico.


















   De repente ouço um barulho estranho vindo do pedal e ao vistoriar descubro que a caixa/movimento central tinha estragado por causa da areia e da água salgada. Puts, que droga! Tentei pedalar o mais suave possível e consegui chegar a tão falada para de Galinhos, que diferente das informações passadas para mim, dista 27 km Caiçara do Norte.


   Em Galinhos fui direto para a pousada da Aninha - Ilha do Pisa Sal. Eu estava bem cansado, mas apenas deixei as coisas no quarto e fui procurar um local para consertar meu meio de transporte. Na vila não havia bicicletaria, mas um mecânico chamado Everaldo se prontificou a me ajudar. Ele, com muito custo, tirou o pedivela, mas não conseguiu abrir a caixa central, pois não tinha a chave certa. Por fim me informou que em Guamaré, cidade pela qual eu deveria passar no dia seguinte, haveria como consertar. Por sorte só se chega em Guamaré, partindo de Galinhos, de barco, ou seja, eu não teria que empurrar a bike.
   Depois tratei de curtir o local que realmente é divino. A grande maioria das ruas de Galinhos é de areia, o que me lembrou muito a Ilha do Mel, no Paraná. Entretanto achei a estrutura/higiene fraca, pois existem muitas charretes e as fezes deixadas pelos cavalos deixam as ruas de areia fofa igual a um campo minado. Andar descalço? Nem pensar.



   Para terminar o dia fiz um banquete regado a pães, mortadela e refrigerante e depois fui dormir, pois tinha que madrugar para pegar o barco.

10/01/14 – Galinhos/RN – Ponta do Mel/RN - 124 Km

   Acordei às 4h da madrugada e uma hora depois já estava na areia esperando o barco. Enquanto aguardava fui presenteado com um belíssimo nascer do sol e ali percebi que o dia seria muito bom.


   Pontualmente às 5h e 30 min chegou o barqueiro, de apelido Chiclete, que me levaria até a cidade de Guamaré, do outro lado do rio. Ao embarcar descobri que o Chiclete já tinha feito contato com o dono da bicicletaria de Guamaré para que logo após a chegada na cidade, eu pudesse tem a bicicleta consertada. Agradeci a ajuda e aproveitei a travessia.



   Ao chegar em Guamaré tive a bike prontamente consertada pelo Flávio. Paguei-o pelo serviço, tirei uma foto dele com o Chiclete, agradeci-os novamente e segui meu caminho.


   As horas já passavam das oito quando deixei a cidade para trás. Pedalei 20 km até a BR-406, sendo que 15 foram sem acostamento e com um movimento intenso de caminhões. Haja atenção!


   No trevo da BR-406 perdi algum tempo regulando as marchas da coroa, pois a troca do movimento central afetou-as. 
   Quando tudo estava nos conformes, descobri que o vento estava a meu favor e o acostamento era bom. Que beleza! Minha média ficou próxima de 30 km/h durante o trajeto de 24 km até o trevo de Macauzinho, onde fiz uma pequena pausa. Nesse trecho pude notar que a paisagem era desértica, com vegetação seca e diversas salinas. Para se ter uma ideia, o RN é o maior produtor de sal do Brasil e o local por onde eu estava pedalando é denominado Costa do Sal. Na hora veio em minha mente o Atacama....hehehe.










   Ao continuar, virei para a esquerda, sentido Pendências, e nada mudou em relação ao vento e a paisagem. 
   Foram 20 km até Pendências e mais 8 até Alto do Rodrigues, onde virei para a direita e enfrentei míseros 6 km de estrada de terra.



   Nesse momento eu estava fazendo uma longa volta, pois não existe caminho pelo litoral e isso significava que o vento iria ficar contra. Puts!
   Bingo! Foi só eu sair da estrada de terra e dobrar a direita na RN-404 que parecia que havia uma parede na minha frente, de tão forte que o vento estava. Coloquei na marcha leve e fui seguindo entre 10 e 15km/h.
    Os vinte e cinco mil metros que tive que enfrentar com o vento contra valeram por 75....huahauha.
   Mesmo a essa adversidade tentei manter o foco e aproveitar a aventura. Tirei muitas fotos e tive a impressão de que fazia tempo que a chuva não dava o ar de sua graça pela região. Quase todas as casas tinham uma cisterna pela armazenar água.







   Ao chegar no trevo de Porto do Mangue virei novamente para a esquerda e descobri que havia voltado para o litoral. Foi então que o vento parou de me castigar e pude apertar o passo.
   O caminho começou a ficar repleto de dunas e todo o cansaço logo foi embora. Era algo surreal.







   Fiz uma pausa na Praia do Rosado e cogitei acampar na areia da praia, mas conversando com um senhor descobri que a tão falada Ponta do Mel estava a menos de 10 km. Segui.
   O trajeto era incrível. Praia de um lado e montanha do outro, ambas com areia branca e vermelha. Fui curtindo o visual e aproveitando aquele momento ímpar.















   Quando cheguei em Ponta do Mel vi uma placa que indicava uma pousada de nome Rosa e Flor e fui averiguar. Lá conheci o seu Floriano e a dona Rosa, um casal daqueles que dá gosto de ver. A simplicidade sempre me fascina e desta vez não foi diferente. Com seu jeito calmo, seu Floriano foi contando sobre a vida na região, sobre seus filhos e muitas outras coisas. Novamente digo: viajo para conhecer lugares, mas muitas vezes o que faz um lugar ser especial são as pessoas.

   Para finalizar o dia, fiz uma visita ao mercado, liguei para casa, andei pela belíssima praia e dormi com o barulho de um vento bem forte, que ao invés de ser assustador, dava a sensação de camping a beira-mar.






11/01/14 – Ponta do Mel/RN - Canoa Quebrada/CE - 144 Km

   Tomei um café da manhã reforçado na pousada, conversei mais um pouco com o simpaticíssimo casal, tirei fotos do artesanato da dona Rosa e depois segui meu destino.



  No início enfrentei um pouco de sobe e desce, mas logo o relevo mudou e pude acelerar o passo. Nesse caminho fui contemplando o mar e algumas usinas eólicas até chegar na BR-110, onde virei para a direita e percorri míseros oito mil metros, repletos de salinas, até a balsa da cidade de Areia Branca.









   Durante a travessia entre Areia Branca e Grossos conversei com um senhor que me indicou o melhor e mais curto caminho a ser seguido. Na chegada em Grossos agradeci-o e comecei a pedalar os últimos quilômetros no RN.



   Percorri 22 km fantásticos, por uma estrada muito bonita, até a praia de Tibau, que estava lotada, pois era sábado. Tirei algumas fotos e segui.











   Fiquei atento para registrar a passagem pela divisa do estados, mas nada apareceu e quando percebi já estava na CE-261. Que droga! O único jeito foi tirar uma foto na placa que indicava a quilometragem da estrada.

   Pois bem, oficialmente no Ceará, fui pedalando pela belíssima região de Icapuí. Não entrei em nenhuma praia, mas da estrada pude vê-las e digo que vale a pena passar alguns dias no local.




   Até Icapuí, onde fiz uma pausa pra pegar água gelada, enfrentei alguns aclives leves, paralelepípedos e um sol escaldante. Ao continuar tive que deixar a relação de marchas bem leve, pois uma forte subida apareceu. Ao terminá-la tive a grande surpresa de encontrar um mirante magnífico, onde fiz questão de parar e tirar algumas fotos.


   Em seguida fui “levado” pelo vento a favor durante 24 km até a BR-304. A média desse trecho ficou próxima de 30 km/h. Que beleza!


   Mas como alegria de pobre dura pouco, na BR-304 o vento soprava lateralmente e o acostamento era muito ruim. Devagar fui avançando e depois de 26 mil metros virei para a direita, onde o vento ficou contra. Misericórdia!

   Sofri nos últimos 8 km, mas o esforço valeu, pois Canoa Quebrada faz jus a fama que tem.
A praia é surreal. A combinação de falésias, dunas e mar é fantástica. É difícil descrever a sensação que senti ao apreciar aquela maravilha, mas confesso que uma felicidade grande invadiu meu corpo. Parei e fiquei longos minutos só contemplando. Depois fiz alguns registros e decidi descer as falésias e ir ao encontro do mar.









   A natureza é realmente incrível, pena que o homem muitas vezes atrapalha. Esse foi o meu pensamento ao descer as falésias, pois descobri que entre elas e o mar, o ser humano construiu bares e quiosques para satisfazer a sua ganância pelo dinheiro. Seria infinitamente mais bonito se tivesse somente a natureza, mas não.
   Caminhei pela praia, tirei foto no cartão postal e voltei pra vila, onde procurei por camping, mas não obtive sucesso. Acabei voltando 3 km pela estrada principal, pois lá havia camping.












   Só tive tempo de armar a barraca, trocar de roupa e comer algo antes de sair caminhando até a duna do pôr-do-sol.
   Na duna encontrei uma multidão e todos pudemos apreciar o belíssimo crepúsculo. Confesso que foi um dos 10 melhores que já vi.












   Depois voltei para o camping, tomei um banho e dormi.







12/01/14 – Canoa Quebrada/CE – Morro Branco/CE - 87 Km

   No planejamento eu tinha programado um dia de folga em Canoa Quebrada, mas devido ao alto custo de vida do local, resolvi descansar em Morro Branco, meu próximo destino.
   Acordei às 5h e 30m, desmontei acampamento abaixo de uma chuva fraca, comi algumas bolachas e parti.
   Logo na saída resolvi parar em um posto de gasolina para jogar água na bicicleta, pois a relação estava cheia de areia proveniente do local onde acampei. Aproveitei também para encher as caramanholas com água gelada.

   Pedalei por míseros 10 km até a segunda entrada de Aracati/CE, onde fiz outra pausa. Essa para comer.
   Logo depois entrei na CE-040, que seria minha companheira até Fortaleza. A estrada boa e o vento a favor facilitaram meu deslocamento que ficou acima dos 24 km/h. A única situação fora do comum foi causada por uma placa que indicava a distância errada: 20 km ao invés de 62 km até Morro Branco. Pode isso??? Rs





   Como eu estava avançando rapidamente, resolvi fazer uma pausa em Sucatinga pra comer açaí. Eu já havia pedalado 62 km e ainda eram 10 h da manhã. 
   Saciado continuei a pedalada e não demorou muito pra que o município de Beberibe aparecesse no horizonte. Bastou seguir as placas para Beberibe e posteriormente Morro Branco.

   O sol estava no centro do globo quando cheguei à praia, que por ser domingo estava completamente tomada por banhistas. A vista é espetacular, pois há uma descida e dela se pode ter uma visão privilegiada do local. Fiz um rápido registro e fui procurar uma lan house para entrar em contato o Daniel, ciclista de Fortaleza que tinha casa em Morro Branco.


   Depois de algumas informações encontrei a lan. Lá falei com o Daniel, que prontamente avisou a caseira. Em pouco tempo eu já estava instalado na casa de praia da família do Daniel. Obrigado camarada.
   Primeiramente tomei um banho, depois resolvi aproveitei a piscina do local. Show! Ali decidi que um dia vou comprar uma casa, com piscina, na praia. Hehehehe



    Depois lavei diversas peças de roupa, comi algo e fui passear na praia.
  Obviamente já sabia da beleza do local, mas mesmo assim fiquei boquiaberto. O mar infinitamente azul/verde era só o aperitivo, pois o prato principal eram as falésias, que diferentemente de Canoa Quebrada, não estavam tomadas pelo comércio.




   Fascinante, surreal, fantástico, deslumbrante, incrível. Todos esses adjetivos são poucos para descrever o local. Já havia lido sobre as falésias no blog do amigo Nelson Neto, http://www.cicloturismoselvagem.com.br/, mas nada melhor do que conferir ao vivo. 
   Conheci a casa onde foi filmada uma novela chamada Final Feliz, fui até o farol, andei por cima das falésias, passei pelo labirinto das mesmas e voltei pela parte de baixo, entre o mar e os paredões.
































13/01/14 – Morro Branco/CE – Folga

 Conforme foi relatado anteriormente, deixei pra folgar em Morro Branco e não em Canoa Quebrada. Do ponto de vista financeiro foi uma ótima troca, mas do turístico não, pois eu já havia conhecido tudo o que queria no dia anterior, ou seja, fiquei sem nada pra fazer.
   Acordei cedo, tomei um café e fui pra a praia, onde permaneci por um longo tempo, pois os turistas não haviam chego. Depois voltei, tomei banho de piscina, escutei música, lavei a barraca e cochilei durante uma hora, acordando perto da metade do dia.
   Como estava impaciente, fui passear na praia mais uma vez. Esse passeio durou quase 4 horas, pois novamente fiquei apreciando o “marzão” de Deus.









   Na volta conversei com o caseiro e combinei o horário de entrega da chave no dia seguinte.
   Por fim bastou paciência e tranqüilidade para esperar o avanço das horas.







14/01/14 – Morro Branco/CE – Fortaleza/CE – 105 km

   Madruguei, tomei um café e parti.
  Logo na saída devolvi a chave para os caseiros e segui em direção à CE-040, que nesse trecho estava totalmente duplicada, proporcionando um pedal bem tranqüilo.


  Tive um pequeno problema nas marchas, pois não estava entrando a coroa maior. Parei e percebi que o movimento central novamente estava ruim. Que droga! O jeito foi esticar o cabo e deixar sem uso a coroa menor.
   Depois desse pequeno contratempo tudo ocorreu bem. Passei pelas cidades de Cascavel e Pindoretama e então descobri que faltavam apenas 22 km para chegar à capital cearense. Um ciclista de speed me alcançou e puxou papo. Fomos conversando até a entrada do beach park, onde ele aumentou o ritmo. Como liguei para o Daniel e seu irmão disse que ele estava dormindo, resolvi seguir até a Praia do Futuro.
   Tirei uma foto da placa que indicava a minha entrada em Fortaleza e comecei a pedalar numa ciclovia que ficava no meio das pistas, pois o acostamento deixou de existir. Logo percebi que a ciclovia estava bem ruim, com diversas ondulações, porém a tranqüilidade que ela proporcionava (pedalar sem se preocupar com os automóveis) foi decisiva para que eu não a abandonasse durante 14 km até virar para a direita na avenida Santos Dumont







   Nessa avenida fiz algumas paradas: a primeira foi para pegar água gelada num posto, a segunda foi no banco para organizar as finanças e a terceira foi para almoçar. Gastei apenas R$ 8,00 no buffet livre e quando estava me preparando para continuar recebi uma ligação do Daniel. O mesmo pediu que eu o esperasse e foi isso que fiz. Poucos minutos depois ele apareceu, mas acabou passando direto. Fui atrás do meu anfitrião cearense e logo o alcancei.
   O Daniel Ribeiro é um ciclista que tenho amizade desde a época do orkut. No ano anterior hospedou o Nelson Neto, já citado nesse blog algumas vezes e por intermédio do Nelson, também iria me hospedar.
  Juntos seguimos para a sua casa, onde conheci sua família: Mãe, irmão, cunhada e esposa, todos muito atenciosos.
  Conversamos bastante e às 16h fomos conhecer a Praia de Iracema, a do Futuro ficara para o dia seguinte.
   Pedalamos por toda magnífica orla e paramos num píer, ou espigão como é chamado. Ali pude ter uma boa noção da beleza da capital cearense. Esperamos que o sol fosse embora e fomos presenteados com um belíssimo espetáculo, o segundo crepúsculo fantástico dessa viagem.



















   Depois fomos para a outra ponta da Praia de Iracema e saboreamos um delicioso acarajé, seguido por uma refrescante água de coco.
   Aqui vale destacar que o fluxo de pedestres aumentou consideravelmente depois do anoitecer. Centenas de pessoas caminhavam pelo calçadão, que a meu ver é um dos melhores do Brasil. Gostei muito do que vi.



   Depois apenas voltamos para a casa do Daniel.
15/01/14 – Fortaleza/CE – Folga – 27 km
 
   Em três dias, essa era a segunda folga, mas essa foi bem movimentada.
  Acordei cedo e aproveitei para deixar as anotações em dia, pois saímos (Daniel e eu) somente às 10h. Desta vez utilizamos o transporte público pra ir até a Praia do Futuro. Ao chegarmos fiquei um pouco decepcionado com o mar, pois uma mancha, que parecia ser de óleo, cobria boa parte do visual. Tirando isso, a praia é show. Caminhamos durante uma meia hora até a parte famosa, repleta de barracas com diversas iguarias. Muitas pessoas já estavam no local e foi difícil encontrar lugar vago, principalmente com vista pro mar.
   Tomamos caldo de caranguejo e água de coco enquanto a prosa corria solta. Ciclistas sempre tem o que conversar.(rs)







  Uma coisa que achei interessante é que diversos serviços inusitados eram oferecidos na mesa, o mais diferente era massagem, mas existiam vendedores ambulantes de CD, DVD, lagosta, camarão, etc. Não aceitamos nenhum, mas no final ganhamos uma música de dois repentistas. Show!
  Na parte da tarde voltamos para a casa do Daniel, pegamos as bikes e fomos almoçar no restaurante Floresta, onde havia um PF barato, mas como acabamos chegando tarde, só tinha buffet. Paciência.
   Depois seguimos para a bicicletaria Savana Bikes, onde conheci o seu Alfredo, dono do estabelecimento. Gente boníssima e um “mostro” no ciclismo. Seus diversos troféus estavam expostos na loja.
   Na Savana Bikes tentei arrumar o movimento central e o bagageiro, mas os mecânicos estavam com muito serviço. O movimento parecia estar novamente com problemas desde a saída de Morro Branco e o bagageiro estava sem um parafuso que caiu na frente da casa do Daniel.
   Ao continuarmos nosso pedal pela capital cearense fomos a uma outra bicicletaria, onde descobri que um dos problemas era só de aperto do pedivela. Que burro eu sou....hehhe. Fiquei com cara de besta.
   Na casa do Daniel eu peguei minha sacola de ferramentas e arrumei o bagageiro antes de sairmos pedalar no Parque do Cocó. O local, que fica bem próximo da residência do anfitrião, é uma belíssima área verde do meio da selva de pedra.
  Percorremos algumas trilhas do parque e depois saboreamos um açaí, que estava bom, mas não bateu aquele de Natal/RN.
   Quando anoiteceu o Daniel fez questão de me levar para comer camarão. Eu estava quase recusando, mas ele me convenceu e não me arrependi.
   Compramos 1,5kg de camarão, mandamos fritar na hora e saboreamos quase tudo. Foi o melhor camarão que comi na minha vida. Que delícia!



   Por fim ainda tive uma boa conversa com o irmão e a mãe do Daniel. Júnior e dona Elci me deram dicas do caminho que deveria seguir no dia seguinte. Além disso, o Daniel conseguiu-me um contato em Jericoacora, onde provavelmente eu poderia dormir.
   Agradeci e agradeço até hoje a ajuda que essa família me deu. Quando precisarem de algo aqui no sul, estarei de prontidão.

16/01/14 – Fortaleza/CE – Gualdrapas/CE – 151 km

   A saída da casa do Daniel foi por volta das 6h e o anfitrião fez questão de me acompanhar até o Marina Parque Hotel. Novamente deixo aqui os meus sinceros agradecimentos ao Daniel e sua família.


  Ao sair da capital cearense fui em direção a famosa Praia de Cumbuco. Cheguei lá com 33 km pedalados e confesso que não achei muita coisa na praia. Cumbuco me pareceu uma praia normal do litoral nordestino. É lógico que tem toda a estrutura turística e a paisagem é encantadora, mas como eu já havia visto balneários bem mais bonitos e tão organizados quanto Cumbuco, não fiquei empolgado. Apenas tirei algumas fotos, filmei e segui.






   Percorri míseros sete mil metros até encontrar a CE-085, que me levaria até Jijoca de Jericoacoara. Nesse pequeno trecho uma chuva fina começou a cair, mas nem precisei me preocupar, pois logo ela foi embora. 
   Os primeiros quilômetros pedalados na CE-085 foram feitos com muita raiva, pois o acostamento era péssimo, deixando o ritmo bem baixo. Felizmente, após o trevo do Pecém a estrada melhorou consideravelmente, incluindo uma duplicação em perfeito estado. Meu humor mudou instantaneamente (rs). 
 


   Passei por várias vilas e ao invés de ir para Paracuru/CE, conforme estava no planejamento, decidi seguir o conselho do Junior, irmão do Daniel, que me indicou a Praia da Lagoinha, distante 11 km da cidade de Paraipaba/CE.
  Neste momento aconteceu um fato inusitado: Eu estava pedalando tranquilamente quando avistei ao longe um ciclista carregado com alforjes. Imediatamente comecei a filmar e falar que era o primeiro cicloturista que havia encontrado na viagem, mas ao chegar perto descobri que se tratava de um “bicicleteiro” carregando galões de algo que parecia óleo. Tive que rir da minha burrice.

   Fiz uma pequena parada quando estava próximo ao trevo de Paraipaba. Tomei um inédito refrigerante de caju e conversei com o dono do estabelecimento, que vendia diversos tipos de cachaça, incluindo algumas que continham bichos mortos dentro de seus recipientes. Credo!

   Saí quase ao meio dia com 100 km percorridos, virei para a direita, passei por Paraipaba e fui para Lagoinha. Gostei do caminho, que mesmo tendo algumas subidas e um vento lateral, me encantou. Achei as vilas pelas quais passei bem simples e bonitas.







  Ao chegar à praia descobri o motivo de muitas placas indicarem-na como a mais bonita do litoral cearense. Não precisei descer até a areia, pois existe um mirante na vila que deixa qualquer pessoa com os olhos brilhando. Do mirante se pode ver a extensa faixa de areia seguida da imensidão azul do Atlântico. Não perdi tempo e comecei a registrar todo aquele visual que é realmente impressionante. Talvez não seja a praia mais bonita do litoral cearense, mas está entre as melhores com certeza.






   Pensei em ficar acampado no corpo de bombeiros, mas como o mesmo não existia no local e eu havia decidido que naquele dia não gastaria com pousada, resolvi voltar para a CE-085, onde a chance de acampar num posto seria maior.
   Eram exatamente 14h e 30 min quando retornei à CE-085 num posto perto do local onde horas antes havia parado para tomar um refrigerante. Pensei em pedir permissão para montar acampamento, mas como achei que tinha muito movimento e pouco espaço, segui.
   Neste momento meu velocímetro já marcava 130 km e decidi que iria parar com aproximadamente 150 km. Percorri esses últimos vinte quilômetros rapidamente com ajuda do vento a favor e para minha sorte, mil metros depois de completar a quilometragem estipulada, encontrei um posto de gasolina. Meu pedido de acampamento foi aceito e rapidamente tratei de montar minha casa ambulante.


17/01/14 – Gualdrapas/CE – Acaraú/CE - 127 km

   Como achei melhor mudar o roteiro e não seguir para as praias de Trairi, Flecheiras e Mundaú, o 11º dia de viagem se mostrou muito chato, pois não havia nada para conhecer e a paisagem não mudou durante os 100 primeiros quilômetros.

   Depois de 32 km percorridos fiz uma pequena pausa para repor as energias. Parei num posto de gasolina que fica no trevo para a Praia da Baleia. Eram 9h da manhã, mas o calor já estava forte. Enchi as caramanholas com água gelada e segui.
   Quando estava com 70 km nas pernas cheguei no trevo onde deveria virar para a direita e por conseqüência enfrentar um forte vento lateral durante 40 km. Paciência.


   No fim desse trecho comecei a enxergar coqueiros e a cidade de Itarema/CE. Isso era um sinal que eu estava voltando ao litoral, a estrada voltaria para leste e o vento ficaria a favor. Comecei a rir sozinho....hehehe.
   Fiz uma pequena pausa em Itarema e segui.



   Neste momento tudo mudou: estrada, paisagem, vento, etc. Foi uma beleza.
  Comecei a ver várias casas durante o trajeto e isso sempre me anima. Fui apreciando cada momento e quando me dei conta já estava em Acaraú, meu destino do dia.







   Diferente do dia anterior, eu estava disposto a pagar uma pousada barata e bastou procurar um pouco para achar uma por R$ 20,00.

   Aproveitei que a minha chegada ocorreu no inicio da tarde para descansar bastante, fazer contato com meus anfitriões de Jijoca e Jericoacora e avisar o meu Antonio Lima que eu havia decidido não passar pela vila de Preá.
   Primeiramente avisei o Felipe, meu contato do couchsurfing. Ele rapidamente me respondeu dizendo que estava tudo certo para que eu pudesse deixar a bicicleta na sua casa que fica em Jijoca de Jericoacoara. Depois falei com o Edivan, contato conseguido pelo Daniel. Novamente fui agraciado com uma resposta positiva, ou seja, poderia pernoitar em sua casa enquanto estivesse em Jericoacoara.

18/01/14 – Acaraú/CE – Jericoacoara/CE - 44 km

   Levantei bem cedo para que pudesse chegar o quanto antes em Jijoca de Jericoacora, distante 44 km de Acaraú.
   Ao chegar tentei ligar para o Felipe (contato do couchsurfing), mas como não havia sinal no celular decidi comprar um cartão telefônico. Nesse momento fui abordado por uma moça chamada Cláudia que ficou bastante interessada na minha viagem e quando comentei sobre esse blog descobri que ela era uma leitora dele. Fiquei bem feliz e surpreso. Proseamos mais um pouco e nos despedimos, porém antes comentei que iria escrever aqui sobre esse encontro. Obrigado Cláudia, você me incentivou ainda mais a continuar relatando minhas aventuras.



   Liguei para o Felipe e descobri que estava muito próximo da sua residência.
  Quando cheguei ele estava me esperando na sacada. Subi alguns andares com a bicicleta nos ombros e pronto, a Raptor (nome da minha bike) estava bem guardada.
  No apartamento estavam Felipe, meu anfitrião, Kati, amiga dele e Ray, mãe da Kati. Os três me recepcionaram muito bem. Conversamos um pouco e descobri que o Felipe era um paulista que fez faculdade no Paraná e foi trabalhar no Ceará. Kati e Ray eram de Manaus.
   Agradeci a ajuda e fui pegar o transporte para Jericoacoara. Foi a melhor decisão, pois não haveria chance de pedalar nesse trecho, de aproximadamente 15 km, cheio de areia.

   Paradise. Ao chegar em Jericoacoara, ou Jeri como é carinhosamente chamada, descobri estar no paraíso. A combinação de praias, dunas, vegetação e vila me encantou. Digamos que Jeri tem o aspecto da Ilha do Mel/PR misturado com Cabo Polônio/Uruguai. Também achei algo parecido com San Pedro de Atacama/Chile (dunas e diversos passeios).
Informações aqui:
http://jericoacoaraturismo.com.br/



   Liguei para o Edivan que me informou o nome e local da loja de sua esposa. Na loja conheci Rokéria, uma pessoa incrível. Fomos para a casa deles e lá conheci Renato e sua esposa. Nós quatro saímos para almoçar.
   Comemos feijoada, arroz e vinagrete. Tudo “perfeitamente perfeito”.
  No período vespertino caminhei por Jeri. Primeiramente fui à praia tomar um merecido banho de mar. Depois percorri toda a vila para ter uma noção mais ampla do local. Por fim caminhei pelo Morro do Serrote até a famosa Pedra Furada. A vista que se tem do alto do morro é belíssima e nesse momento o vento forte que batia em meu rosto dava a total sensação de liberdade. 
   Sempre escrevo aqui que viajo para conhecer lugares e Jeri está na lista dos 10 melhores já visitados.



























   Ao voltar na Pedra Furada encontrei o Edivan em casa. Conversamos um pouco e fomos para a duna do pôr-do-sol. Edivan é web design e desenvolve vários sites da vila. Sendo assim, constantemente está atualizando-os com fotos, inclusive do crepúsculo.
  Em Jeri, foi a primeira vez no Brasil que vi o sol se pondo no oceano. Isso tudo graças a posição geográfica do local.
  Subimos a duna com centenas de pessoas e esperamos o momento que mesmo com algumas nuvens, foi fantástico.








   Depois voltamos para a praia e ficamos proseando na barraca de bebidas do Renato. Pude ter a noção de como é a vida em Jeri do ponto de vista dos moradores. Descobri os prós e os contras de se viver ali.


   Pensei em sair para conhecer o famoso forró de Jericoacoara, mas apenas jantei na companhia da família e fui dormir, pois estava cansado.

19/01/14 – Jericoacoara e Jijoca/CE - Folga

   Acordei cedo, fui à padaria, tomei um café com o Edivan e a Rokéria e fui passear na praia.
  Caminhei à beira-mar durante um bom tempo e ali, sozinho, tive um daqueles momentos mágicos de reflexão. Pensei na vida e agradeci a Deus por tudo.








   Na volta passei na loja da Rokéria para comprar uma camiseta de lembrança. Escolhi a peça, o tamanho certo e na hora de pagar ela me disse que seria um presente. Fiquei meio sem jeito e devo ter agradecido algumas vezes. A família do Edivan (ele, Rokéria, seus filhos, Renato e sua esposa) fez a minha passagem por Jeri ser espetacular. Agradeço imensamente a hospitalidade que tive e quando vierem pro sul, me avisem.

   Eram 10h da manhã quando resolvi voltar para Jijoca. Tirei uma foto com meus anfitriões de Jeri e fui para a praça pegar o transporte.
   No trajeto entre Jericoacoara e Jijoca conheci um pessoal show. Infelizmente não lembro os nomes, mas sei que havia uma médica paulista, uma advogada cearense e um casal paraibano. Conversamos sobre diversos assuntos durante o percurso. Pena que não lembrei de pegar o contato de ninguém, pois seria legal encontrá-los novamente.
   Em Jijoca voltei para a casa do Felipe, onde fui agraciado com um belo almoço preparado pela Ray, uma cozinheira de mão cheia. Dava pra ver que ela adorava cozinhar.
   O período da tarde foi dedicado a conhecer a famosa Lagoa do Paraíso, que ficava a poucos metros de onde eu estava.
   Através das dicas do Felipe foi bem fácil encontrar a lagoa e em aproximadamente 20 minutos eu estava mergulhando nas suas águas transparentes.
   O nome da lagoa faz jus ao local, sendo realmente um paraíso. A natureza dessa região (Parque Nacional de Jericoacoara) é simplesmente espetacular. 
   Mergulhei, deitei nas redes que ficam dentro da água, fotografei, filmei e relaxei bastante. Tentei aproveitar ao máximo aquele momento e voltei bem devagar.














   A noite tomamos um café e comemos bolinhos de chuva preparados pela Ray, nossa mãe postiça...hauahu. Ainda no café conversamos e rimos bastante (Ray, Kati, Felipe e eu), principalmente com o relato de uma viagem trágica/cômica que o Felipe fez.


   Foram momentos muito bons os quais passei com eles. Mais uma vez deixo um sincero agradecimento  e também um convite aqui neste blog: obrigado Felipe, Kati e Ray, espero vocês aqui em Paranaguá/PR.
   Antes de dormir acompanhamos um pouco do noticiário e confesso que fiquei um pouco preocupado com a situação do presídio de Pedrinhas, no Maranhão. Eu iria passar em frente ao mesmo.
   Deixei a preocupação de lado e tratei de dormir.

20/01/14 – Jijoca/CE – Chaval/CE – 129 km

   Acordei, arrumei minhas coisas e me despedi do pessoal. Da rua tirei uma foto dos meus amigos que estavam na sacada e segui meu destino.

   Só tinha uma coisa em mente: os Lençóis Maranhenses. Nada mais no caminho me importava, nem mesmo o famoso Delta do Parnaíba, no Piauí. Queria vencer o quanto antes os 350 km que me separavam da cidade de Barreirinhas/MA, de onde saem os passeios para os Lençóis.
   Ao sair de Jijoca eu estava radiante, pois havia realizado o grande sonho de conhecer Jericoacoara e ainda tinha feito diversos amigos. Literalmente comecei a rir sozinho enquanto pedalava.
   Foram aproximadamente 60 km até fazer o contorno da cidade de Granja/CE, onde virei para a direita e comecei a enfrentar um vento contra e algumas subidas. Paciência.





   Mesmo em um ritmo menor, pedalei rapidamente os 20 km até o trevo para Camocim/CE, onde tornei a pegar vento a favor. O resto foi moleza!


   Estava bem rápido para um ciclista carregado e em muitos momentos a velocidade ultrapassou os 35 km/h, principalmente nos quilômetros que resolvi apostar corrida com um ciclista local.....hauhaua.
   Quando cansei fiz uma pequena pausa para tomar um refrigerante e comer umas bolachas. Depois o sol apareceu, o acostamento ficou ruim e eu diminui o passo, mas mesmo assim cheguei cedo no meu destino do dia: Chaval.







  Sem vontade de acampar procurei uma pousada barata. Fui ao supermercado, fiz um pequeno passeio pelas ruas principais e fiquei o resto da tarde curtindo o ócio.

21/01/14 – Chaval/CE – Piauí – Tutóia/MA – 190 km

   Ao sair de Chaval, estava me despedindo do magnífico litoral cearense e entrando no curtíssimo litoral do Piauí, com apenas 66 km de extensão.
  Registrei a passagem pela divisa dos estados e segui. Desde que saí de Jijoca havia decidido que não iria conhecer o Delta do Parnaíba e com isso o Piauí se tornou apenas um caminho entre o Ceará e o Maranhão. Não via a hora de conhecer os Lençóis.


   Se a pista da BR-402 estava em perfeito estado, o mesmo não posso dizer do acostamento, que era cheio de trepidações e ondulações. Resolvi pedalar pela pista e sair somente quando aparecesse um veículo, algo raro nas primeiras horas da manhã.


   Rapidamente fiz os primeiros 26 km do dia e cheguei na cidade de Camurupim/PI. Dali em diante o tráfego aumentou e começou um sobe e desce danado, fazendo com que meu ritmo caísse um pouco.


   Chegando próximo a Parnaíba tive um baita susto: um raio da roda traseira quebrou e entrou na corrente fazendo com que ela travasse instantaneamente. Por sorte eu estava subindo e consegui parar a bicicleta sem cair. 
   Fiquei p. da vida, mas não adiantava reclamar. Nesse primeiro momento apenas tirei o bendito raio e voltei ao giro. Só então percebi que nessa brincadeira as marchas desregularam. Que M...!
   Parei no trevo que dava acesso a cidade de Parnaíba para olhar melhor a situação. Vi que além do raio já tirado, havia outro quebrado. Droga! Decidi substituir somente um e ajeitar as marchas. 
   Depois segui para a BR-343, na saída da cidade. Como as marchas ainda não estavam boas, parei em um posto de gasolina e deixei-as reguladas novamente. Nesse posto havia um restaurante no qual fiz um pequeno lanche antes de seguir. Já havia pedalado 80 km.
  Alívio. Esse foi o sentimento que senti ao continuar, pois a bicicleta estava normal.Ufa! Por alguns momentos pensei que meus planos de atravessar o Piauí em menos de um dia não dariam certo.
  Percorri aproximadamente 16 km pela ótima  BR-343 e voltei para a BR-402.






  Foram 11 km até o rio Parnaíba que faz a divisa dos estados. Fiz o registro dando ênfase ao imenso rio, famoso pela sua fauna e flora exuberantes. Havia cumprido a meta do dia e bastava achar um local para dormir.








   No trevo para Araioses/MA parei num posto, comi um pastel e tomei o famoso refrigerante Jesus. Eu já estava com 120 km pedalados e pensei em acampar ali, pois já tinha o consentimento do dono, porém resolvi segui até Tutóia/MA, distante 70 km.

   Sabia muito bem das dificuldades do terreno (sobe e desce infinito), mas tinha o tempo necessário para chegar: 3,5 horas até o anoitecer.
   Apertei o passo e em momento algum deixei a cadência diminuir. Minha média estava um pouco acima dos 21 km/h.
  Quando faltavam apenas 30 km virei para a direita e mais uma dificuldade apareceu: o vento contra.
  Passei pela vila de Cana Brava e na hora lembrei do meu amigo cicloturista Nelson Neto, pois ele pernoitou ali. Rapidamente pensei em fazer o mesmo, mas acho que o ego falou mais alto e mudei de ideia. Eu tinha que chegar em Tutóia antes de anoitecer.








   Pedalei, pedalei e pedalei por uma montanha-russa infinita até um pouco antes das 18h.
   Ainda tive tempo de descansar enquanto tomava um refrigerante antes de procurar uma pousada barata. Por sorte encontrei uma na entrada da cidade, muito perto da estrada que deveria seguir no dia seguinte.


  Depois de devidamente instalado, com banho tomado e bem alimentado, avisei o Abílio Costa, meu próximo anfitrião, pois eu estava a poucos quilômetros de Barreirinhas, onde fica sua casa.
  Dormi pensando nos Lençóis Maranhenses, eles estavam tão próximos.....eheheh

22/01/14 – Tutóia/MA – Barreirinhas/MA - 47 km

   Tomei um farto café da manhã na pousada e peguei a estrada até Paulino Neves/MA.
   O caminho, mesmo com uma pequena montanha-russa, se mostrou interessante. Foram exatamente 30 km até o centro de Paulino Neves onde tive que pegar um veículo 4x4 para atravessar um extenso trecho de areia até Barreirinhas.







  Enquanto esperava a saída, avisei - o Abílio Costa - que chegaria perto das 12h. Depois recebi uma mensagem dele dizendo que um amigo de Paulino Neves faria um passeio comigo pelos Pequenos Lençóis. Infelizmente já não dava mais tempo, pois eu estava em trânsito. 
   O veículo com tração nas quatro rodas atravessou um longo trecho arenoso (parte dos Pequenos Lençóis) durante um bom tempo até chegar em Barreirinhas/MA. Tempo esse que aproveitei para filmar, fotografar e conversar bastante com uma família carioca que estava de férias.





   Menos de cinco minutos depois da minha chegada encontrei com o Abílio, um ciclista e professor de 55 anos com um espírito de 20. Meu contato com o Abílio se deu por causa do Nelson Neto. Nelson ao saber da minha passagem por Barreirinhas, imediatamente me indicou o Abílio, ciclista que havia conhecido na sua viagem pela América do Sul. (http://www.cicloturismoselvagem.com.br/2013/06/brasil-iv.html).
   Logo que comecei a conversar com o Abílio percebi que dos daríamos muito bem. Seu jeito extrovertido de ser me deixou bem a vontade para conversar sobres diversos assuntos.
   Abílio me disse que um cicloturista que indiquei estava na sua casa. Seu nome era Dominic e estava viajando de bicicleta desde o Canadá. Quando eu estava em Jericoacoara o Felipe me disse que outro ciclista havia enviado uma solicitação de hospedagem e ao conferir a sua viagem, vi que ele iria passar por Barreirinhas. Na hora passei o contato do Abílio.
   Na casa do professor ciclista conheci pessoalmente o Dominic, um inglês natural de Manchester que já falava muito bem a nossa língua. Conversamos bastante enquanto eu trocava os raios quebrados do dia anterior. Deixo aqui o site do Dominic, vale a pena conferir:
   Almoçamos e dormimos. Eu particularmente capotei numa espécie de sofá que havia na sala. Só acordei perto das quatro e meia da tarde, horário que tínhamos combinado de sair pedalar com o Abílio.


  O passeio foi curto, mas belíssimo. Pedalamos até a localidade de São Domingos, onde apreciamos o gigantesco Rio Preguiças, que segundo diz o portal da cidade é:
”é a principal via fluvial do município de Barreirinhas e um dos principais pontos turísticos da localidade, meio de vida e subsistência da maioria da população, sendo via de acesso para muitos povoados e comunidades ribeirinhas.”
  Às margens do belíssimo rio tiramos muitas fotos, inclusive do pôr do sol. Foi realmente fascinante.










  Ao voltarmos para a cidade fizemos um pequeno passeio pela parte chamada beira rio e depois voltamos.



Por fim ficamos conversando sobre diversos assuntos (viagens, culturas, ciclismo, etc) enquanto tomávamos um café. 
   O dia seguinte seria dedicado aos Lençóis e por consequência à realização de um grande sonho: conhecer todo o litoral brasileiro entre o Chuí e os Lençóis.

23/01/14 – Lençóis Maranhenses – Folga

   Logo cedo o Abílio nos arranjou um passeio de graça pelos Lençóis. Dominic e eu ficamos bem felizes, não era pra menos....hauahua.
   Perto das nove e meia da manhã um veículo 4x4 nos pegou em frente à casa do Abílio, rodou pela cidade pegando outros turistas, atravessou o rio Preguiças numa balsa e percorreu um longo trecho arenoso até chegar às dunas, onde desembarcamos.




   No local já estavam outros veículos e em pouco tempo o grupo de turistas aumentou. Destaque para as belas mulheres que faziam parte dele .
   Começamos a seguir um guia até a única lagoa cheia, pois a época das chuvas ainda não havia chego. Caminhamos pelas dunas com muita euforia. Era nítida a satisfação que estávamos sentindo ao conhecer o local. Parecíamos crianças brincando num parquinho de areia....ahuahua. Subíamos e descíamos dunas, fotografávamos e filmávamos a todo instante, fazíamos um giro completo e só víamos areia. Tudo completamente surreal.














   Quando todo aquele contexto quis se tornar monótono, chegamos na lagoa do peixe, que mesmo não sendo a mais famosa, me deixou com os olhos arregalados. Deixei as minhas coisas com o Dominic e fui correndo dar um mergulho. A sensação foi espetacular.







   Para alguns poderia ser somente uma lagoa, mas pra mim era muito mais que isso: era o ápice da realização de um sonho.

   Desde criança sempre fui fascinado por praias e quase todas as minhas férias escolares foram passadas no litoral paranaense. Quando comecei a praticar o cicloturismo resolvi conhecer o litoral catarinense e fiquei deslumbrado com tanta beleza ao ponto de sonhar com o resto da costa brasileira até os Lençóis Maranhenses.

   Sonho, que devido ao tamanho continental de nosso país, foi realizado aos poucos. Primeiro teve a aventura intitulada CuritiBahia, depois foi a vez do Rio Grande do Sul e em seguida teve o pedal entre Natal e Salvador que despertou em mim uma grande vontade de conhecer o quanto antes o trajeto que faltava para chegar aos Lençóis.
   Naquele momento eu estava em êxtase. Em minha mente vieram lembranças das viagens pela costa brasileira, dos meus companheiros de viagem e das pessoas que me ajudaram pelo caminho. Tudo isso está simbolizado na foto abaixo: A lagoa representa o litoral brasileiro, o cicloturista Dominic (de vermelho) faz alusão aos meus companheiros e o Abílio está representando aqueles que me ajudaram.

   Pois bem, depois de um longo tempo desfrutando do local, voltamos.





   Almoçamos na casa do Abílio e às 14:30 nos despedimos do Dominic. Ele estava indo até Paulino Neves e de lá seguiria um caminho parecido com o que fiz.

   Aproveitei o resto da tarde para descansar. Dormi tanto que nem vi o Abílio sair e voltar três vezes da casa.

24 e 25/01/14 – Barreirinhas/MA – São Luis/MA – 251 km

   Após realizar o sonho de percorrer o litoral brasileiro até os Lençóis Maranhenses, faltava percorrer os últimos quilômetros até a capital do Maranhão, mais precisamente até o aeroporto da capital Maranhense, pois eu não tinha o objetivo de conhecer a cidade.
   O Abílio Costa, que no relato do dia anterior simbolizou todas as pessoas que me ajudaram, também se tornou um companheiro de viagem, pois decidiu que faria esse último trecho junto comigo.
   Saímos as 7h, passamos que casa do Igor (amigo do Abílio) e depois pegamos a estrada, que era praticamente plana.


   Pedalamos 16 km e paramos numa localidade chamada Sobradinho. Ali tomamos um café com outros amigos do meu companheiro: Núbia e Orlando, que são donos de uma lanchonete chamada Baião de dois.
Em seguida fizemos uma média horária de 22 km/h, com picos de 28. Melhor impossível.
   Rapidamente chegamos no povoado Mirinzal, onde fizemos uma rápida pausa para pegar água na casa do João, outro conhecido do Abílio.







   Depois fomos até o povoado chamado Sangue (isso mesmo, Sangue), onde ocorreu um descanso maior. Encontramos uma lanchonete e ali “almoçamos” bolachas acompanhadas de muito refrigerante.
   Conforme já escrevi aqui, tive uma grande afinidade com o Abílio e assunto não faltava para nós. Conversamos, conversamos e quando vimos já havia se passado quase uma hora. Resolvemos seguir.


  Quinze quilômetros à frente o Abílio começou a passar mal devido ao sol do meio-dia e ao esforço. Diminuímos o ritmo e logo em seguida paramos num rio. O Abílio aproveitou para se refrescar e relaxar os músculos.Eu apenas descansei.


   Depois fizemos uma pausa na casa de um senhor chamado Adrião. Essa foi para carregar a bateria do celular do Abílio . Adrião estava descascando uma espécie de semente para depois fazer um remédio. Ele nos disse que esse remédio curou a sua doença (não lembro qual era) e que foi num sonho que ele descobriu essa cura. Efeito placebo ou não, se podia ver a sinceridade daquele homem. Proseamos um bom tempo com seu Adrião e sua família, pois além de ter que esperar o carregamento do celular, também esperamos que uma pancada forte de chuva passasse. Saímos com uma pequena garoa.



   Logo chegamos ao trevo de Humberto Campos/MA, onde viramos no sentido oposto, rumo a Morros/MA.
   A garoa continuou e em pouco tempo estávamos completamente molhados. Nesse momento percebi o cansaço do Abílio, pois há muito tempo ele não fazia uma pedalada tão longa. Resolvemos que não iríamos pedalar até Morros e começamos a ficar atentos a qualquer sinal de hospedagem.

   Exatamente às 17h fizemos uma parada para descanso e alimentação, onde confirmamos a existência de uma pousada 10 km à frente.
   Infelizmente a tal pousada não estava funcionando, porém nos indicaram um restaurante que ficava dois quilômetros adiante. Bingo!
   Conseguimos um local protegido da chuva para dormir e também aproveitamos para saborear um ótimo buffet. Agradecimentos ao Anderson, dono do estabelecimento chamado Latadinha, que não nos cobrou um centavo sequer.


  Enquanto comíamos, tivemos uma boa conversa com Anderson e seus funcionários. Ali novamente pude ver o carisma do nordestino.
   De noite levei um baita susto, pois de repente o Abílio começou a se encolher e a gritar de dor. Na hora pensei que era algo ligado ao coração e fiquei alguns momentos sem saber o que fazer, mas logo ele avisou que estava com câimbras e um alivio tomou conta de mim. Ajudei-o na medida do possível e depois dormi.
   Quilometragem do dia: 133 km.

   O derradeiro dia da viagem começou com um reforçado café no restaurante Latadinha e depois com 25 km até a cidade de Morros/MA, onde se iniciou a montanha-russa que levou embora as calorias ganhas no café. Esse sobe e desce continuou durante 15 km após a passagem por Morros e nos obrigou a fazer uma parada estratégica numa lanchonete.




  Logo depois o relevo voltou a ser plano, onde pudemos desenvolver uma velocidade maior. Ao passarmos pela cidade de Rosário/MA o Abílio começou a sentir um desconforto na musculatura das coxas. Fizemos uma pequena pausa para ele se recuperar através de uma massagem. 
  Ao seguirmos ele ainda não estava tão bem e decidiu que iria descansar bastante quando entrássemos na BR-135, a rodovia que vai até São Luis. Eu decidi seguir.


   Na BR me despedi do Abílio e comecei a enfrentar o PIOR trecho da viagem, pois além do alto fluxo de automóveis, não havia acostamento e a estrada não era duplicada. A tensão estava nítida em meu semblante. Carros e mais carros, caminhões e mais caminhões passavam a todo instante. Muitas vezes tive que sair da pista e pedalar pelo barro que existia ao lado, pois carretas iriam passar nos dois sentidos. Pra agravar o quadro, começou a chover. Que M...!
   Tomei um cuidado extremo e dei graças quando atravessei uma grande ponte, pois a estrada estava duplicada após ela. Ufa!
  Foram 27 km de tortura, mas acredito que daqui a algum tempo essa situação melhore, pois a duplicação está sendo feita.





   No fim ainda pedalei mais 23 km até o aeroporto, muitos deles debaixo de chuva. Nesse trecho passei em frente ao presídio de Pedrinhas, levei um tombo bobo no acostamento, registrei a minha chegada em São Luis e novamente encontrei o Abílio, que pegou uma carona e me esperou perto na entrada da cidade.

   No aeroporto o Abílio ficou cuidando da minha bicicleta enquanto eu fui tentar antecipar a data do voo.  Infelizmente a empresa pela qual eu faria a viagem não estava atendendo naquele dia. Resolvi ficar numa pousada próxima e novamente me despedi do Abílio. De noite consegui marcar para o dia seguinte o voo.
   Assim finalizei mais uma viagem e conforme já relatei aqui, realizei o meu sonho de conhecer o litoral brasileiro.
   No total dessa aventura foram 1855 km pedalados entre Natal e São Luis. 

Um comentário:

  1. muito bom adorei a leitura, e despertou a vontade de fazer essa viagem, parabéns

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